Do outro lado do Muro: o Futebol Feminino na antiga Alemanha Oriental

Ao contrário do que vimos na Alemanha Ocidental, o Futebol Feminino, embora não recebesse incentivo algum, na RDA não fora banido

Guarde este nome: Vladimir Tsvetkow. De origem búlgara, Vladimir chega à Alemanha para estudar Engenharia Elétrica na década de 60 em uma universidade na cidade de Dresden, Saxônia e, acaba, por ali encontrar uma oportunidade que jamais pensara que teria. 

Apaixonado por futebol e costumeiro praticante do jogo, é dele quem parte o pontapé inicial para criação de um clube de futebol feminino no país - embora já existissem relatos de partidas disputadas por outras equipes anos antes -, após ver algumas meninas, que costumavam praticar handebol, jogarem futebol por mera diversão. É então que, em 1968, surge o BSG Empor Dresden-Mitte.

Para formar sua equipe, Vladimir utilizou um espaço publicitário de um jornal local e esperou que as interessadas fizessem contato. Por muito tempo, apenas treinamentos e jogos-treinos foram praticados, o primeiro jogo só seria disputado em agosto do ano seguinte, diante os olhos de algumas milhares de pessoas, em sua maioria homens, que ali estavam com interesses secundários. Frente ao Empor Possendorf, as mulheres de Tsvetkow obteriam o primeiro êxito do clube, ao vencer o rival por dois a zero.

"Muitos dos homens aqui presentes nem imaginavam ser possível mulheres jogarem futebol. O interesse destes, era apenas verem seus seios balançarem. E claro, trocas de camisas entre as jogadoras", declarou o comandante do Empor após a partida.

Embora o futebol feminino não fosse proibido pela Federação de Futebol (DFV) ou, sequer, reconhecido como modalidade esportiva de fato, ele cresceu, e muito. Apenas três anos após a iniciativa do jovem búlgaro, já haviam outras 149 agremiações espalhadas pelo país, mesmo sem um campeonato para ser jogado ao nível nacional. Somente no berço do esporte, Dresden, é que havia alguns torneios distritais, mas com poucos clubes. 

Vladimir e as jogadoras do BSG Empor Dresden-Mitte (Reprodução)

Obviamente que, com o expoente crescimento da modalidade no país, a DFV não teve outro caminho a seguir a não ser o da introdução dos clubes como afiliados. Porém, isso não significou muita coisa, apesar do merecido reconhecimento à modalidade, a Federação não fez muito para a potencializar. O tão sonhado "campeonato nacional" só seria estabelecido no fim da década de 70... embora, o termo "campeonato nacional" não fosse o mais adequado, já que não passava de um torneio regionalizado onde quinze equipes representantes dos distritos da RDA enfrentavam-se em grupos, separados, que determinariam os quatro, posteriormente cinco, melhores times do país. Assim, o BSG Motor Mitte Karl-Marx-Stadt se tornaria o primeiro campeão da competição, sucedido pelo rival BSG Wismut Mitte Karl-Marx-Stadt no ano seguinte e, nos outros quatro anos que fora assim disputado, por Turbine Potsdam (3x) e BSG Motor Halle, o último vencedor.

O formato de disputa ainda seria alterado por três vezes antes da Reunificação da Alemanha em 1990. Durante 1985 e 1987, o grande campeão foi determinado por meio de mata-mata entre os melhores times dos distritos do país. Em duas das três oportunidades, o Turbine Potsdam voltou a levar a melhor, enquanto o BSG Rotation Schlema ficou com a outra conquista. 

A espelho da Oberliga Masculina, seria organizado um campeonato de pontos corridos com duas vias (norte e sul), em 1988, onde os melhores de cada uma delas se enfrentariam em jogos de ida e volta nas suas respectivas casas para, enfim, decretar o campeão da Alemanha Oriental. Disputada neste modelo até 1990, a Oberliga Feminina contou com BSG Rotation Schlema, Turbine Potsdam e BSG Post Rostock como seus vencedores. 

Em 1991, já após a reunificação alemã, o USV Jena conquistou o último campeonato alemão feminino oriental. Naquele ano, a disputa seguiu o modelo tradicional de pontos corridos, onde os dois melhores times receberiam o direito de disputar a recém-criada Frauen-Bundesliga junto aos times da Alemanha Ocidental.

A primeira e única partida disputa pela Seleção Feminina

Em maio de 1990, contra a já experiente seleção da Tchecoslováquia, a Alemanha Oriental viu pela primeira vez mulheres lhe representar em uma partida internacional. Sob tutela do mais vitorioso treinador da época, Bernd Schröder, também comandante do Turbine Potsdam, as meninas se preparam por meses, mas não foi o bastante. Dentro de campo, a superioridade tcheca prevaleceu e acabou culminando em uma derrota por três a zero.

O pós-reunificação 

Para os clubes orientais, a junção com os clubes do ocidente não foi nada fácil. O capitalismo fez com que os poderosos ex-vizinhos dominassem o futebol. E isso não só entre as mulheres. Muitas equipes desapareceram. Nem mesmo o USV Jena, campeão da Alemanha Oriental no último ano antes da unificação das ligas, resistiu à disputa com os clubes do ocidente na primeira Frauen-Bundesliga e logo terminou rebaixado à segundona. 

Somente o Turbine Potsdam foi quem conseguiu bater de frente, embora tenha demorado para surgir como uma força. 

Hoje, o Turbine ostenta o poder de dizer que, sim, é um dos maiores clubes do futebol feminino alemão. Não só por suas conquistas domésticas, como também internacionais. São cinco títulos da Frauen-Bundesliga, três da Copa da Alemanha e outros dois da Liga dos Campeões. Um museu de se invejar. Para além das conquistas, o 1. FFC Turbine Potsdam é um símbolo de resistência e há de ser valorizado. 

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