Muito além de 50 anos: a história do futebol feminino alemão

Banida durante 15 anos, a modalidade passou a ganhar força no país em 1954, fruto do título mundial da Seleção Alemã Ocidental de Fritz Walter

(Fotos: dpa/EPA/dpa)

A DFB celebra, neste sábado (31), supostos cinquenta anos do futebol feminino na Alemanha. Mas, ao fazê-lo, ignora o passado da modalidade no país. Desde a década de 1920, o futebol feminino é praticado na Alemanha - começou em universidades, até que, em 1930, surgira o primeiro clube feminino, o 1. DDFC Frankfurt, que durou apenas um ano, refém do preconceito e demais barreiras, como a DFB (que recusou um pedido de filiação do clube). Durante o regime nazista, a modalidade foi banida, com consentimento da DFB, e só voltaria a ser praticada na década de 1950, fruto do impacto do Milagre de Berna. Mas, em julho de 1955, a DFB voltou a proibir que seus clubes e juízes afiliados mantivessem relações com o futebol feminino. 


"Na luta pela bola, a graça feminina desaparece, corpo e alma sofrem, inevitavelmente, danos e a exibição do corpo viola a dignidade e a decência"


Somente pouco mais de 15 anos depois, em 31 de outubro de 1970 , a medida foi revogada, com algumas condições: jogos com dois tempos de 30 minutos e realizados, somente, em boas condições climáticas; bola em tamanho juvenil; uso de chuteiras sem cravos; além de uma pausa de 6 meses no calendário dos clubes.


"As regras mais atrapalhavam do que nos encorajavam a jogar"

Monika Koch-Emsermann, ex-jogadora e técnica do FSV Frankfurt 


Cerca de 50 mil mulheres espalhadas pela Alemanha Ocidental - na Alemanha Oriental a modalidade não foi proibida - jogavam futebol quando a DFB deu fim ao banimento. Cinco anos depois, já eram 215 mil.


1955-1970: OS ANOS DE PROIBIÇÃO

Os anos de veto não foram fáceis para quem estava no meio, mesmo com a modalidade se popularizando cada vez mais entre as mulheres. A DFB, com ajuda das Associações Regionais filiadas, fazia questão de punir, quem quer que fosse - caso estivesse ajudando, de alguma forma, as mulheres que queriam jogar futebol - e atrapalhar jogos. Não só clubes, mas, também, cidades foram castigadas ou ameaçadas pela Federação por dar apoio, em algum momento.


Munique, em 1957, foi a primeira cidade a sentir na pele a ira da Federação Alemã por conceder um lugar para realização de um amistoso entre uma Seleção da Alemanha Ocidental - formada um ano antes por um empresário de Essen - e uma holandesa. A Seleção da Alemanha Ocidental levou a melhor na ocasião, quatro a dois, sob olhares de 17 mil pessoas. 


A cidade foi escanteada pela DFB na hora de selecionar os locais que receberiam jogos da "Mannschaft" naquele ano. E, não só, a Federação também encaminhou uma carta à prefeitura de Munique, alertando que, em caso de realização de novos jogos entre times ou seleções femininas, nenhum evento de grande porte seria levado para cidade em ocasiões futuras. Ainda em 1957, a DFB ameaçou, mas não castigou, Berlim, por sediar um Campeonato Europeu de Seleções Femininas - que acabou sendo um completo fracasso. Esperava-se que 40 mil pessoas, ao todo, se locomovessem para ver os 3 jogos do torneio, que aconteceram no icônico Poststadion, então principal palco da capital alemã, mas, apenas, 8 mil compareceram, o que acabou resultando em um prejuízo grande para os organizadores do evento, posteriormente acusados de fraude. No campo, a Inglaterra foi quem faturou o certame, batendo uma segunda Seleção da Alemanha Ocidental na decisão, por quatro a zero.


Uma terceira Seleção da Alemanha Ocidental foi formada em 1958, por Josef Floritz, então empresário e ex-técnico do modesto Borussia Neunkirchen. Ao contrário das demais, a Seleção de Floritz pagava as atletas - pouco, mas já era alguma coisa. 


"Floritz pode ter ganho um bom dinheiro, ao mesmo tempo que era arriscado para ele não receber nada ou quase nada se nenhum ou poucos espectadores comparecessem. Mas isso (receber pouco e gerar lucro) não me incomodava. Simplesmente por podermos realizar nosso sonho de jogar futebol. Foi o melhor momento que tive"

Christa Kleinhans, ex-jogadora alemã, que atuou pela Seleção de Floritz


Nenhuma das três seleções ainda estava em ativa quando a DFB decidiu dar fim ao banimento da modalidade. Todas elas deixaram de existir entre 1961 e 1966. 


Alguns meses antes da DFB anunciar o fim da proibição, Kaiserslautern e Bayern de Munique se contrapuseram à Federação para criar seus departamentos de futebol feminino (nenhum clube da Bundesliga, à época, possuia - Lautern e Bayern foram pioneiros). Chegou a acontecer, também, uma Copa do Mundo não-oficial na Itália, onde a Alemanha Ocidental foi representada pelo SC Bad Neuenahr, clube que se ôpos à DFB para formar sua equipe e era, constatantemente, ameaçado com multas pela Federação.


1974: CAMPEONATO ALEMÃO É CRIADO

Somente quatro anos após a "legalização" da modalidade é que foi criado um Campeonato Nacional de Futebol Feminino. Com modelo de disputa semelhante (quadrangulares para definir semifinalistas) ao usado na Era Oberliga (1945-1963) do futebol masculino, o Campeonato Alemão Feminino comportava 16 times, campeões de torneios regionais.


Em 1974, participaram: Werder Bremen, Buxtehuder SV, Sparta Göttingen, Wiker SV, Bonner SC, Preussen Krefeld, DJK Eintracht Erle, Bad Neuenahr, Bubach-Calmesweiler, TuS Wörrstadt, Germania Untergrombach, Bayern de Munique, Oberst Schiel, SpVgg Wiehre, TSV Grötzingen e Tennis Borussia Berlin.


Chegaram às semis, Bonner SC, TuS Wörrstadt, Bubach-Calmesweiler e DJK Eintracht Erle  - TuS e DJK fizeram a final, enquanto Bubach-Calmesweiler e Bonner SC duelaram pelo terceiro lugar - onde o Calmesweiler levou a melhor. O TuS sagrou-se campeão, batendo o DJK por 4–0, em Mainz. O Campeonato seguiu neste mesmo formato até 1990, quando foi estabelecida a Frauen-Bundesliga.


TuS Wörrstadt vence o primeiro campeonato  alemão em Mainz contra o DJK Eintracht Erle por 4-0 (Witters/Hans Dietrich Kaiser)
TuS Wörrstadt vence o primeiro campeonato  alemão em Mainz contra o DJK Eintracht Erle por 4-0 (Witters/Hans Dietrich Kaiser)

Bonner SC (1x), Bayern de Munique (1x), Bergisch Gladbach (9x), Bad Neuenahr (1x), KBC Duisburg (1x), FSV Frankfurt (1x) e TSV Siegen (2x) foram os demais campeões do campeonato pré-Frauen-Bundesliga .


1980: COPA DA ALEMANHA PASSA A SER DISPUTADA

Dez anos após o fim da proibição, a Copa da Alemanha foi disputada pela primeira vez. Com os mesmos 16 participantes do Campeonato - até 1990, quando criada a Frauen-Bundesliga e divisões inferiores. O formato de disputa atual, com mão única, vigora desde a segunda edição - somente na primeira edição é que tivemos jogos em ida e volta, com exceção da final. O Bergisch Gladbach foi quem levou o caneco nas duas primeiras edições, batendo TuS Wörrstadt, por 4 a 0 em Stuttgart, e Wittekind Wildeshausen, por 3 a 0, em Frankfurt.


O Estádio Olímpico de Berlim foi sede da final durante 24 anos (1985 a 2009). Os jogos ocorriam horas antes das finais masculinas numa tentativa da DFB em atrair um maior apreço para modalidade, mas o "tiro" acabou saindo pela culatra  -  os torcedores presentes, geralmente, celebravam quando as jogadoras deixavam o campo. Desde 2010 e, pelo menos, até 2023, as finais são realizadas no RheinEnergieStadion, em Colônia.


Bergisch Gladbach vence primeira edição da Copa da Alemanha (Picture Alliance/Roland Witschel)
Bergisch Gladbach vence primeira edição da Copa da Alemanha (Picture Alliance/Roland Witschel)


1982: FEDERAÇÃO ALEMÃ FORMA SUA SELEÇÃO

Doze anos se passaram para, enfim, a DFB decidir que era hora de ter seu plantel nacional - a esta altura, somente as Alemanhas Ocidental e Oriental não possuíam suas respectivas seleções, entre as principais potências do futebol europeu. Inclusive, um ano antes, a DFB foi convidada a participar de um Mundialito de Seleções, na China, e teve de mandar o time do Bergisch Gladbach - que voltou à Alemanha campeão - para lhe representar. 


Então responsável pelo curso de formação de novos técnicos da Federação, Gero Bisanz foi a figurada escolhida para comandar o time. Embora não tenha se entusiasmado com a proposta no início, Gero acabou aceitando, apesar de ter pouca ciência do que era e do que precisava a modalidade no país.


No primeiro jogo da Seleção, em novembro, a maioria das convocadas atuavam pelo Bergisch Gladbach. O resultado foi positivo, 5 a 1 pra cima da Suíça, em Coblença, na Alemanha Ocidental. 


Grande parte das jogadoras, já estavam em estágios avançados de sua carreira. Jovens, eram pouquíssimas. A longo prazo, não era o ideal para o objetivo que tinha Bisanz: formar uma base, bem entrosada e capaz de buscar coisas grandes.


Bisanz também não tinha quem lhe ajudasse com treinos, trabalho psicológico ou coisas do tipo. Era tudo ele quem tinha que fazer. Foi assim durante 4 anos, até que a DFB começasse a tratar com mais profissionalismo a modalidade e Tina Theune, que foi aluna de Bisanz no curso de formação da Federação, chegasse para o ajudar.


Não ter uma base formada e bem entrosada  -  não havia muitas sessões de treino  -  condenou a Seleção a três anos e meio de insucessos. Foram, apenas, 5 vitórias em 21 jogos, sendo que só uma não ocorreu em amistosos, o que deixou a Alemanha de fora das duas primeiras edições (1984 e 87) de Eurocopa.


Somente a partir do momento que Bisanz tomou a iniciativa de realizar sessões de treinos especiais e individuais que as coisas passaram a mudar e os frutos a serem colhidos.


A Frauen-Mannschaft fez uma campanha quase perfeita nas Eliminatórias para Eurocopa de 1989, que seria realizada na Alemanha. Foram 4 vitórias e 2 empates nos 6 jogos disputados e a garantia da classificação para o torneio, que só contava com 4 seleções em suas primeiras edições  -  ou seja, era muito difícil garantir presença. 


Seleção Alemã joga sua primeira partida contra a Suíça (Imago/Sven Simon)
Seleção Alemã joga sua primeira partida contra a Suíça (Imago/Sven Simon)


1989: SELEÇÃO ALEMÃ DISPUTA E VENCE A EUROCOPA PELA PRIMEIRA VEZ

A Euro'89 foi um divisor de águas para o futebol alemão feminino. Até então, a modalidade não era bem quista, tampouco tinha seus jogos mostrados na televisão, seja ela a pública ou a fechada. O próprio Bisanz não era levado muito a sério pelos seus colegas treinadores e alguns mecenas, como Udo Lattek e Uli Hoeness.


Como eram, apenas, quatro equipes (nesta edição, Alemanha Ocidental, Itália, Noruega e Suécia) que participavam, a competição já começava em semifinais. A Alemanha teve pela frente, em seu primeiro jogo, uma velha conhecida das Eliminatórias, a Itália. O jogo foi duro e teve de ser decidido nas penalidades, após empate por 1–1 no tempo regulamentar. A goleira Marion Isbert, à época jogadora do TuS Ahrbach, foi a heroína do dia: defendeu três cobranças e guardou a última das alemãs, garantindo a vitória por 4–3 nos penais. 


Cerca de 8 mil espectadores compareceram ao jogo, em Siegen, e mais de um milhão acompanharam pelo Das Erste (ARD), canal público do país. Foi a primeira vez que uma partida entre mulheres foi passada na TV alemã  -  o que não se repetiu na decisão (o canal exibiu apenas um resumo da decisão). 


Na final, a Frauen-Mannschaft teve pela frente a campeã de 87, Noruega. Embate, na teoria, complicadíssimo e que tinha o lado nórdico como favorito. Mas, na prática, o jogo foi outro. A Alemanha conseguiu uma vitória tranquila, por quatro a um, com gols de Ursula Lohn, aos 22 e 36; Heidi Mohr, aos 45; e Angelika Fehrmann, fechando a conta aos 73.


O momento, mágico, foi prestigiado por 23 mil pessoas presentes no Bremer Brücke, em Osnabrück  -  apesar de, algumas centenas ou milhares, estarem lá, apenas, esperando que alguma troca de camisa entre as atletas ocorressem, como disse a lenda Silvia Neid, certa vez, ao dissecar o futebol feminino desta época.


Jutta Nardenbach, esquerda, Petra Damm, meio, e a capitã Doris Fischen, direita, celebram titulo da Eurocopa (dpa)
Jutta Nardenbach, esquerda, Petra Damm, meio, e a capitã Doris Fischen, direita, celebram titulo da Eurocopa (dpa)


1990: FRAUEN-BUNDESLIGA É CRIADA

A necessidade de ter um campeonato nacional forte aliado ao impacto positivo do titulo da Eurocopa, no ano anterior, levou a DFB a criar a "Bundesliga Feminina" - ainda sem o formato ideal (o utilizado hoje).


O modelo aplicado pela DFB consistia em grupos norte e sul, com 10 equipes cada, que serviam para definir os classificados às seminfinais (campeões e vices dos grupos) e os quatro rebaixados. Na primeira edição, avançaram ao mata-mata: TSV Siegen (campeão), TuS Niederkirchen (terceiro), FSV Frankfurt (vice) e KBC Duisburg (quarto). Já SV Wilhelmshaven, Neukölln, Bad Neuenahr e TuS Binzen terminaram rebaixados às ligas regionais.


Para abrigar as equipes advindas da Alemanha Oriental, todo o sistema do futebol alemão sofreu alterações (exclusivamente) para temporada 1991/92. Na Frauen-Bundesliga, não foi diferente: o modo de disputa seguiu o mesmo, mas aumentaram os números de participantes de 20 para 22 e os de rebaixados de 4 para 6. 


A última mudança radical (e fundamental) aconteceu 7 anos após a fundação da competição, em 1997. A DFB abriu mão dos grupos norte e sul, além do mata-mata, para formar uma "pista-única" de pontos corridos. O número de clubes diminiu drasticamente, antes 20, passou a ser 12.


Jogadoras de Schmalfelder SV e SC Poppenbüttel batalham pela bola na primeira partida da história da Frauen-Bundesliga (Witters/Wilfried Witters)
Jogadoras de Schmalfelder SV e SC Poppenbüttel batalham pela bola na primeira partida da história da Frauen-Bundesliga (Witters/Wilfried Witters)


1991-2001: SELEÇÃO ALEMÃ CONQUISTA EURO MAIS QUATRO VEZES

Ainda sob o comando de Gero Bisanz, a Alemanha conquistou mais dois títulos de Eurocopa, em 91 (primeira edição organizada pela UEFA) e 95, um vice-campeonato mundial para Noruega, também em 95, além de um quarto lugar na primeira edição da Copa do Mundo Feminina, em 91, e uma campanha aquém do esperado nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atenas, quando a Frauen-Mannschaft terminou eliminada na fase de grupos. Bisanz deixou o cargo em agosto de 1996, em seu lugar entrou Tina Theune, sua assistente durante 10 anos. 


"Foi quando eu disse a mim mesmo: o trabalho de desenvolvimento está concluído. Agora outros devem assumir e continuar o trabalho. Era meu trabalho estabelecer o futebol feminino internacionalmente com uma seleção nacional. As sementes cresceram"

Bisanz, após as Olimpíadas de 1996


Sob o comando de Theune, a Frauen-Mannschaft seguiu dominando a Europa. Em 97, na Noruega, a Alemanha de Theune bateu a Itália, na decisão, por 2-0 e conquistou o quarto troféu da Euro. Dois anos depois, na terceira Copa do Mundo, realizada nos EUA, a Seleção não correspondeu às expectativas e parou nas quartas de final, ante as anfitriãs (que sagrariam-se campeãs). 


Em 2001, a quinta taça de Eurocopa e com sabor especial: além de ter sido realizada na Alemanha, a conquista foi decretada com o extinto "gol de ouro", anotado por Claudia Müller, na ocasião, contra a Suécia, aos 8 minutos do tempo extra.


2002: FFC FRANKFURT VENCE PRIMEIRA EDIÇÃO DA COPA DA UEFA, ATUAL LIGA DOS CAMPEÕES FEMININA

Equipe dominante na Alemanha, à época, o FFC Frankfurt (hoje, Eintracht Frankfurt) ratificou a sua força na primeira edição da Copa da UEFA, hoje batizada "Liga dos Campeões Feminina". 


O FFC estreou na segunda fase, a de grupos - onde disputava-se três jogos e o melhor time de cada um das oito chaves avançava. O clube alemão teve pela frente Levante (Espanha), Codru Chişinău (Moldávia) - equipe que veio da primeira fase - e CSC Yerevan (Armênia). 


Somente o Levante ofereceu resistência ao poderio das alemãs. O clube espanhol saiu derrotado por, apenas, 1-0. Enquanto o Codru foi goleado por cinco gols a zero e o Yerevan viu as suas redes balançarem dezoito vezes. Sem dificuldades, o FFC avançou às quartas para enfrentar o Odense (Dinamarca) - que, por sua vez, deu até um certo trabalhinho no jogo de volta, na Alemanha, mas não o suficiente para impedir as alemãs de avançarem. 


Nas semis, o Frankfurt derrubou o Toulouse (França) vencendo o jogo de ida por 2 a 1 e empatando, por 0 a 0, a segunda mão, realizada na Alemanha. A final, realizada em jogo único em Frankfurt, o FFC venceu por dois a zero, com gols de Steffi Jones e Birgit Prinz, ante o Umeå, da Suécia, em maio de 2002. 


O Frankfurt repetiu a dose mais três vezes e é, ainda, o segundo maior campeão da competição, atrás, somente, do Lyon. A Alemanha ainda conquistou outros cinco títulos, com três equipes: Turbine Potsdam (2), Wolfsburg (2) e FCR Duisburg (1). Nenhum outro país possui mais conquistas, nem mesmo a França. O domínio alemão na competição é (era) tão grande que, em 14 das 19 edições disputadas, ao menos, um finalista era de terra gêrmanicas.


O FFC Frankfurt vence a primeira Copa da UEFA (Picture-Alliance/Frank May)
O FFC Frankfurt vence a primeira Copa da UEFA (Picture-Alliance/Frank May)


2003: SELEÇÃO ALEMÃ É CAMPEÃ DO MUNDO PELA PRIMEIRA VEZ

Nos Estados Unidos (o mundial de 2003 seria na China, mas foi realocado para os EUA, país sede da edição anterior, em decorrência da epidemia do vírus Sars-CoV), a Seleção Alemã teve a sua redenção. Havia a necessidade de a Seleção Alemã conquistar a Copa do Mundo Feminina. O domínio no continente era excelente, mas as frustações nas Copas anteriores pesava contra a Seleção.


A campanha da Mannschaft foi perfeita, desde a fase de grupos até a finalíssima. Contra Canadá, Argentina e Japão, nos grupos, Rússia, nas quartas de final, e os EUA, nas semis, passeou: 23 gols marcados nos cinco jogos e só 3 sofridos. 


A final, contra a Suécia, proporcionou, novamente, um épico encontro, tal como em 2001, na Euro. A Seleção Sueca saiu na frente, ainda no primeiro tempo, com Hanna Ljungberg, mas acabou permitindo que as alemãs igualassem o marcador já no início do segundo com um toque de genialidade de Birgit Prinz, para colocar Maren Meinert em condições de marcar. 


Com o placar igual, o jogo seguiu para o tempo extra e, lá, Renate Lingor achou Nia Künzer  -  que havia entrado em campo aos 88 minutos  - para carimbar, com um sútil toque de cabeça, o titulo mundial. De novo, a Alemanha despachara a Suécia com um gol de ouro.


"Foi um momento indescritível. É incrível que eu tenha marcado o gol do título"

Nia Künzer, sobre seu gol


Nia sofreu muito ao longo da carreira, antes mesmo de chegar ao Mundial, aos 23 anos, já havia passado por três cirurgias em seus joelhos devido a lesões nos ligamentos cruzados (duas no esquerdo e uma no direito)  -  e, ainda, viria a passar por uma quarta pós-Copa, que a tirou dos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004. Em 2008, aos 28 anos, decidiu se aposentar.


Cino alemãs entraram para o "time ideal da Copa": Silke Rottenberg (goleira), Sandra Minnert (defensora), Bettina Wiegmann (meia), Maren Meinert (meia) e Birgit Prinz (atacante), que ainda foi artilheira e melhor jogadora.


Cada jogadora recebeu 15 mil euros como bonificação pelo título. E o pedido, feito pelo grupo, para retirar as estrelas referentes aos titulos mundiais masculinos, foi atendido pela Federação.


Nia Kunzer celebra seu gol de ouro (EPA/Jack Smith)
Nia Kunzer celebra seu gol de ouro (EPA/Jack Smith)


2004: SEGUNDA DIVISÃO DA FRAUEN-BUNDESLIGA É CRIADA 

Segundo nível mais alto do futebol feminino alemão desde então, a "2. Frauen-Bundesliga" foi criada com o intuito de tornar a modalidade ainda mais profissional e elevar o nível de competivididade. Já são 16 anos e, bom, até agora, ela não entregou o que se projetava. Boa parte das equipes que participam são times b dos que estão na primeira divisão e, consequentemente, não podem ser promovidos, o que acaba resultando em times muito mais fracos entre os 12 do pelotão de elite.


O modelo de disputa em grupos norte e sul, como adotado nos primeiros anos de Frauen-Bundesliga, também foi utilizado na segundona, e por muitos mais anos, mas sem o mata-mata - havia dois campeões (pois é) e estes eram promovidos (exceto se o campeão fosse/for uma equipe b, neste caso a vaga vai para quem vem logo atrás na classificação). 


Para temporada 2018/19 em diante, a DFB anunciou mudanças importantes: sistema de "pista única" com 14 times em vez de 24 (eram 12 em cada grupo) e 3 rebaixados em vez de 8 (poderia ser até 10 em algumas ocasiões pois havia playoffs de rebaixamento). Por conta da pandemia da covid-19, a temporada 2020/21 está sendo jogada ao modo antigo, e com 19 equipes (7 serão rebaixadas ao fim da competição para que, na próxima época, volte a contar com 14 times).


2005: ENCERRAMENTO DA ERA THEUNE COM MAIS UM TITULO DE EUROCOPA 

Campeonissima, Tina Theune decidiu, ainda em 2004, que, após a Eurocopa de 2005, a ser realizada na Inglaterra, deixaria o cargo na Seleção - que seria assumido por Silvia Neid, assistente de Tina e jogadora da Seleção na época que Bisanz era o treinador.


A competição foi bem tranquila para as alemãs. Na primeira fase, grupos, conquistaram três vitórias nos três duelos que travaram, contra Noruega, Itália e França. Como oito equipes (mudança de formato em 1997) disputavam o certame, avançavam duas em cada chave. No caso, Suécia e Finlândia na chave A; Alemanha e Noruega na chave B. 


Enquanto Noruega e Suécia travaram um duelo pegado, que terminou com vitória das norueguesas por 3-2 naprorrogação, a Alemanha teve vida fácil contra a Finlândia: 4 a 0, com três dos quatro gols saindo ainda nos primeiros 12 minutos de jogo.


Novamente, Alemanha e Noruega fizeram uma final de Eurocopa. E, novamente, a Alemanha levou a melhor. Diante olhares de 21 mil pessoas presentes no Ewood Park, em Blackburn, a Alemanha bateu as norueguesas por 3-1.


2005-2016: NOVO CICLO COM SILVIA NEID

Sob o comando de Neid, a Alemanha viveu sua melhor fase. A comandante levou o país ao bi do mundo, em 2007, mais dois titulos de Eurocopa e um inédito Ouro nos Jogos Olímpicos, em 2016. 


No Mundial da China, em 2007, a equipe de Neid lidou muito bem com seus adversários. Na fase de grupo, com Japão Argentina e Inglaterra, apenas as inglesas conseguiram "frear" (o jogo terminou empatado em 0 a 0) as alemãs. A Argentina levou um sonoro 11 a 0, enquanto, contra o Japão, o placar foi modesto: 2 a 0.


No mata-mata, a Frauen-Mannschaft teve pelo caminho Coreia do Norte, Noruega, ambas derrotadas por 3-0, e o Brasil, na finalíssima.


Diante a amarelinha de Marta e companhia ilimitada, a Alemanha teve muito mais trabalho. Bom time que era, o Brasil vendeu caro o título. O primeiro tempo foi de domínio brasileiro. A Alemanha teve, nos pés de Garefreker e Smisek, suas melhores de marcar antes dos 15 minutos, porém, ambas desperdiçaram as oportunidades. O Brasil, por sua vez, pressionou bastante e encaixotou as alemãs com uma forte marcação no meio-campo. Foram, pelo menos, umas quatro ou cinco boas chances para as brasileiras inagurarem o marcador, mas nenhuma se cumpriu.


Após a volta do intervalo, Neid avançou a marcação da sua equipe e passou a pressionar mais. Deu certo, aos 6 minutos da segunda etapa, Prinz abriu o placar. O Brasil voltou a apertar e Angerer, goleira alemã, se tornou a principal figura em campo. Inclusive, defendendo um pênalti de Marta aos 18 minutos. Faltando quatro minutos pro fim do jogo, Laudehr, de cabeça, fechou a conta e garantiu bi alemão. 


Seleção Alemã celebra o bi do mundo (dpa)
Seleção Alemã celebra o bi do mundo (dpa)

Dois anos depois, em Helsinque (Tchéquia), a Alemanha garantiu a sétima Eurocopa, batendo a Inglaterra por 6 a 2, na decisão. Contra a Noruega, na Súecia, quatro anos mais tarde, veio o oitavo titulo, o sexto consecutivo.


No Brasil, em 2016, Neid despediu-se da Seleção, com o Ouro Olímpico. A campanha nos Jogos do Rio não foi esplendorosa, a Frauen-Mannschaft quase fez as malas pra casa já na fase de grupos - a vaga no mata-mata foi garantida pelo saldo superior ao da Austrália, terceira na chave da Alemanha. 


Nas quartas de final do torneio, a Frauen-Mannschaft bateu a China por 1-0, com gol de Melanie Behringer, e avançou para enfrentar o Canadá, rival que a derrotou na fase de grupos. Desta vez, as canadenses não foram pareas e a vitória alemã veio: 2 a 0, gols de Behringer, de pênalti, e Däbritz. A decisão, no Maraca, contra uma velha conhecida: Suécia, que eliminara o Brasil, nas penalidades, nas semis. Quase 53 mil prestigiaram o ouro alemão naquele 19 de agosto. Com gols de Marozsán e Sembrant (contra), a Frauen-Mannschaft bateu as suecas por 2-1.


Desde que Neid saiu, três treinadores estiveram à frente da Adler: Steffi Jones, Horst Hrubesch (interino) e Martina Voss-Tecklenburg. Apesar de não ter conseguido garantir a vaga para os Jogos Olímpicos de Tóquio, Tecklenburg devolveu a estabilidade de outrora: disputou 18 jogos, venceu 16e perdeu apenas um, que infelizmente resultou em eliminação na Copa do Mundo de 2019, nas quartas de final ante a Suécia (sim, mais uma vez as seleções se enfrentaram), e na não-classificação para as Olímpiadas.


2020: O ATUAL MOMENTO DA MODALIDADE 

Embora seja referência no que diz respeito ao mérito esportivo, de seleção e clubes, o futebol feminino alemão ainda não é tratado com o devido reconhecimento e respeito que merece. Há muito o que melhorar - a começar pela forma como DFB e mídia tratam as principais competições (a cobertura é bem pequena). 


Como bem disse Anna Blässe, jogadora do Wolfsburg, a modalidade está estagnada na Alemanha. Não há respeito pelo torcedor que quer acompanhar a Frauen-Bundesliga e a DFB-Pokal - a Federação Alemã praticamente esconde os jogos do público - tampouco explorado o potencial que existe.


2020: O ATUAL SISTEMA DE DIVISÕES

A "pirâmide" do futebol feminino alemão hoje consiste em oito níveis. Sendo, somente, os dois primeiros considerados profissionais. Desde a criação da 2. Bundesliga, em 2004, a Regionalliga passou a equilaver à terceira divisão. Embora seja dividida em cinco, apenas três equipes são promovidas.

A Kreisliga B, onde atualmente milita o Schalke 04, que criou seu departamento de futebol feminino neste ano, corresponde à oitava divisão, o nível mais baixo de todos.

O sistema de divisões (Gabriel Pereira/Fussball Brasil)


RECORDISTAS PELA SELEÇÃO

- Birgit Prinz, atacante, 214 jogos e 128 gols (primeira em aparições e maior artilheira)

- Heidi Mohr, atacante, 83 gols (segunda maior artilheira)

- Inka Grings, atacante, 64 gols (terceira maior artilheira)

- Kerstin Stegemann, defensora, 191 jogos (segunda em aparições)

- Ariane Hingst, defensora, 174 jogos (terceira em aparições)


Hall da Fama: Birgit Prinz, Heidi Mohr, Tina Theune (técnica), Silke Rottenberg, Doris Fitschen, Nia Künzer, Steffi Jones, Bettina Wiegmann, Renate Lingor, Silvia Neid (única presente em todos titulos, seja como jogadora, auxiliar e técnica), Martina Voss-Tecklenburg e Inka Grings


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