Em 2002, Ballack comandou um Leverkusen vice-campeão europeu

Na trave! Conheçam os times alemães que ficaram a um passo de conquistar a Europa. Parte 03

Foto/Reprodução: France Football

Nem só de glórias é feito o futebol. A Alemanha, quarto país com mais títulos da Liga dos Campeões, também acumula algumas dolorosas derrotas nos campos europeus. Liderados pelo todo poderoso Bayern de Munique, os germânicos se acostumaram a vencer. Foram cinco títulos do Bayern, um do Borussia Dortmund e um do Hamburgo. Os três clubes de maior torcida são, com isso, responsáveis pelas sete conquistas alemães. Mas se três equipes alcançaram a maior glória do futebol europeu, três bateram na trave e quase tocaram no céu. Eintracht Frankfurt, Borussia Mönchengladbach e Bayer Leverkusen estiveram a um pequeno passo do estrelato.

O caminho:

Classificado para a Liga dos Campeões da temporada 2001/2002 depois de um quarto lugar na Bundesliga do ano anterior, o Bayer Leverkusen de Michael Ballack, Oliver Neuville, Bernd Schneider e Lúcio estreou, ainda, na fase preliminar da competição.  Sem a vaga direta para a fase de grupos, o time da pequena Leverkusen começou a sua jornada na terceira fase classificatória, a última antes da fase de grupos. Junto com Barcelona, Ajax, Dortmund e Liverpool, o Bayer era um dos grandes clubes a começar a competição nas fases classificatórias daquele ano. Seu primeiro adversário, o Estrela Vermelha, vinha de uma vitória sobre o Omonia do Chipre na rodada anterior. Classificado para a terceira fase, o time sérvio recebeu, em casa, o Leverkusen para o confronto que proporcionaria, ao vencedor, uma vaga na próxima fase da Liga dos Campeões. O jogo de ida, na Sérvia, terminou em um empate sem gols. No jogo de volta, na BayArena, 3 a 0 Leverkusen. 

Foto/Reprodução: Bayer Leverkusen

Classificado para a fase de grupos, o Leverkusen viu as bolinhas o presentearem com uma pedreira atrás da outra. No grupo da morte, o time alemão enfrentou o Barcelona, o Lyon e o Fenerbahçe. Com um formato diferente do atual, a Liga dos Campeões de 2002 classificava os três primeiros colocados de cada grupo para uma segunda fase, uma espécie de oitavas de final em forma de grupos de quatro. Sorteado para o grupo F, o Bayer terminou em segundo lugar, três pontos atrás do Barcelona, primeiro colocado, e três pontos na frente do Lyon, terceiro colocado. 

Na segunda fase de grupos, a oitavas de final da época, a equipe de Klaus Toppmöller  viu a sorte novamente os abandonar. Emparelhados com o Deportivo La Coruña de Djalminha e Mauro Silva, com o Arsenal de Henry, Vieira e Bergkamp e com a Juventus de Del Piero, Nedved, Trezeguet, Davids, Buffon e companhia o azarão alemão não tomou conhecimento dos seus adversários, se classificando em primeiro, com dez pontos, mesma quantidade do segundo colocado La Corunã. 

Classificado para as quartas de final, o adversário da sensação alemã foi o Liverpool de Owen e Gerrard. No jogo de ida, em Liverpool, o time mandante venceu o Leverkusen por 1 a 0, gol de Hyypiä, aos 44 minutos do primeiro tempo. No jogo de volta, precisando de uma vitória por dois gols de diferença, o Bayer protagonizou um dos maiores jogos da sua história ao vencer o time inglês por 4 a 2, garantindo a classificação para as semifinais no apagar das luzes, aos 84 minutos de jogo, com um gol do zagueiro brasileiro Lúcio. 

O Leverkusen abriu o placar com um belíssimo gol de Ballack aos 16 minutos. Aos 42, Abel Xavier empatou para os visitantes, que iam para o intervalo com a classificação. Porém, no segundo tempo, Ballack voltou a balançar as redes. O camisa 13 subiu mais alto que a defesa do Liverpool e fez, de cabeça, dois a um para o Leverkusen. Quatro minutos depois, mais um gol do time da casa. Berbatov aproveitou o rebote de Dudek e ampliou para os rubro-negros. Com o placar a seu favor, o Bayer viu Litmanen, aos 79, diminuir para os reds, devolvendo a classificação para os ingleses. Mas a noite era alemã. Aos 84 minutos, Lúcio recebeu uma bola enfiada, invadiu a grande área e chutou forte, cruzado, vencendo o arqueiro polonês e dando a vaga para o time da casa nas semifinais da Liga dos Campeões. 

Foto/Reprodução: Bayer Leverkusen
O gol de Lúcio contra o Liverpool
Após eliminar o Liverpool, o Bayer enfrentou outro inglês pelos semifinais da Liga dos Campeões. O adversário da vez foi o Manchester United. Comandados por Sir Alex Ferguson e com Verón, Giggs e Van Nistelrooij, artilheiro da competição, o United era outro grande time a cruzar o caminho do Bayer. O confronto de ida foi no Old Tradford, em Manchester. O jogo acabou empatado em 2 a 2. Os gols do United foram anotados por Zivkovic (contra) e Van Nistelrooij, enquanto os tentos do Leverkusen foram feitos por Ballack e Neuville. Na volta, em Leverkusen um empate por menos de dois gols dava a classificação ao time da casa. E foi exatamente isso que aconteceu. Leverkusen e United empatarem em 1 a 1, gols de Neuville e  Roy Keane. O resultado garantiu os rubro-negros na sua primeira, e única, final de Liga dos Campeões. 

Na final, juntamente com o Bayer estava o Real Madrid e a sua primeira onda galáctica. Figo, Zidane, Raúl, Roberto Carlos e Hierro eram alguns dos craques daquela equipe estrelada montada por Florentino Pérez e comandada por Vicente del Bosque. Após bater o Barcelona nas semis, os merengues viajaram até o Hampton Park, em Glasgow, na busca pela sua nona orelhuda. O confronto entre Ballack e Zidane, dos dois maiores meio-campistas da história marcaria uma das finais mais relembradas da história, muito por conta do francês e do seu gol antológico.

A Grande Final:

Foto/Reprodução: AFP
Glasgow foi a sede da grande final da Liga dos Campeões de 2002. Um time estreante enfrentaria o octacampeão europeu diante de 52 mil pessoas em um Hampden Park abarrotado. Comandados por Ballack e companhia, o Bayer chegou a final após uma série de confrontos duríssimos. Do outro lado o Real de Zidane havia acabado de eliminar o arqui-rival Barcelona nas semifinais da competição. Com a moral lá no alto, os dois times viviam uma temporada dos sonhos e se enfrentavam em um jogo que valia muito para as duas equipes. Para o Bayer estava em jogo um título inédito, o maior título possível para uma equipe europeia. Do lado merengue valia o nono título da Liga dos Campeões, o primeiro durante a era galáctica, que custou milhões de euros para os cofres madridistas. 

Os dois times tinham esquemas foram a campo com esquemas táticos bastante semelhantes. O Real Madrid, de Del Bosque jogou em um 4-4-2 em forma de losango. Já o Bayer atuou em um 4-5-1 também em forma de losango, mas com um jogador dentro dele.  O time espanhol foi a campo com: César; Michel Salgado, Hierro, Helguera e Roberto Carlos; Makélélé, Figo, Solari e Zidane; Raúl e Morientes. Do lado alemão, os onze titulares foram: Butt; Sebescen, Zivkovic, Lúcio e Placente; Ramelow, Schneider, Ballack, Brdaric e Bastürk; Neuville.

O jogo começou pegado. O Real Madrid tinha a posse da bola mas encontrava uma marcação dura, ríspida do Bayer Leverkusen. O time alemão não tinha muitas chances quando tentava atacar a zaga merengue. Makélélé se multiplicava em campo, desarmando uma jogada atrás da outra a favor dos madridistas. Aos oito minutos, Roberto Carlos cobrou um lateral com força em direção a Raúl. O camisa 7 pegou a defesa alemã desprevenida e bateu rasteiro, fraco, no canto esquerdo de Butt, que, inexplicavelmente, aceitou o arremate de Raúl.

Um apagão na defesa de Toppmöller havia custado a liderança no placar. Com apenas oito minutos os alemães viram as estrelas galácticas tomarem a ponta do marcador, saindo em vantagem na grande final. Mas se uma falha defensiva - principalmente de Lúcio e Butt - entregou o primeiro gol madridista na partida, um dos seus componentes iria, cinco minutos depois, se redimir da falha e recolocar o Bayer no jogo.

Aos 13 minutos, Makélélé colocou a mão na bola e o árbitro deu falta a favor do Leverkusen. Schneider foi para a bola e cruzou, na medida, para Lúcio, lá no alto, cabecear para dentro do gol de César. O zagueiro brasileiro, responsável pela marcação de Raúl no gol merengue, empatava o jogo para os alemães logo após ter sido vencido na corrida pelo atacante espanhol. Era a redenção do zagueiro-artilheiro.

Foto/Reprodução: Reuters
Lúcio empatando o jogo para o Bayer



O gol de empate fez o Bayer crescer na partida. Com um jogo de muita troca de passes, a equipe alemã envolvia o Real Madrid, chegando a meta adversária. Aos 21 minutos, Brdaric invadiu a pequena área, após belo passe de Lúcio, mas chutou fraco, em cima do goleiro César. O domínio do Leverkusen passava pelos pés de dois jogadores: Ballack e Placente. O alemão comandava o meio-campo rubro-negro, enquanto Placente era muito acionado pelo lado esquerdo, além de anular Figo pelo lado, forçando o craque português a buscar o meio.

Do lado merengue, Zidane e Roberto Carlos eram os grandes destaques da partida. Com ambos atuando pelo lado esquerdo, o Real Madrid via as suas grandes jogadas serem criadas por ali. E foi justamente pela esquerda, que Roberto Carlos e Zidane orquestraram o segundo gol merengue na partida. O domínio alemão, que durou cerca de 20 minutos, só foi interrompido por um ato sobrenatural. Aos 44 minutos, Zidane escreveu, com os pés de Deus, um dos momentos mais marcantes da história do futebol. O cruzamento de Roberto Carlos saiu forte, alto e, teoricamente, sem direção. Mas Zidane parecia estar predestinado. No local certo e na hora certa, o craque francês acertou um voleio antológico, dificílimo, fazendo o gol mais bonito da história da competição e, sem dúvida, o seu.

O tento anotado pelo Madrid não fazia jus ao que era o confronto. O Bayer não dava espaços e encurralava os espanhóis contra a sua própria meta. Mas o futebol não é feito de justiça. Zidane fez o que só ele poderia fazer em um jogo como esses. Seu chute, nunca antes visto e jamais repetido tirou os galácticos do sufoco e os encaminhou para a glória. Incrédulos e já com Berbatov em campo o Leverkusen foi para o vestiário sem saber o que os havia atingido.

Na volta do intervalo, Bayer e Real Madrid protagonizaram mais 45 minutos de bom futebol. Zidane sobrava em campo. O francês era, disparado, o grande jogador da final, não só pelo gol mas também pela sua atuação magistral. Depois de quinze minutos de pura trocação, Del Bosque optou pela retirada de Figo e pela entrada de Steve McManaman. Pouco tempo depois da primeira substituição madridista, Toppmöller lançou o Bayer para o ataque. Ulf Kirsten, atacante, saiu do banco para substituir Sebescen, lateral direito. A entrada de Kirsten reorganizou o sistema rubro-negro. A busca pelo gol de empate forçou Toppmöller a mudar as suas peças da seguinte maneira: Zivkovic foi para a lateral direita, Ramelow foi recuado para a zaga e Kirsten se juntou a Berbatov no ataque, transformando o esquema do Bayer em um 4-3-1-2.

Foto/Reprodução: Getty Images

Ao mesmo tempo em que Kirsten entrava no time alemão, Del Bosque foi forçado a tirar César, lesionado em um embate com Lúcio, e escalar o jovem Iker Casillas na meta madridista. A terceira e última alteração do Real Madrid viria pouco tempo depois. Makélélé foi sacado para a entrada de Flávio Conceição. Nesse momento, a equipe de Del Bosque apostava em meio-campistas frescos e com boa condição física, enquanto o Bayer jogava todas as suas peças na nova dupla de ataque.

Apesar das alterações, o Bayer passou longe de levar perigo a meta madridista. Sem sentir, ao menos, o cheiro do gol, o Leverkusen via um Madrid seguro, calmo e controlado ditar o ritmo da partida, que por um bom tempo parecia ser sua. A derrota, que viria alguns minutos depois, impediria que a sua grande temporada fosse coroada com um título. Após dois vice-campeonatos (o da Bundesliga e a da DFB-Pokal) o Leverkusen se encaminhava para mais uma amarga derrota. Liderados por Ballack, o maior jogador da sua história, os rubro-negros viram a sua seca de conquista se prolongar por mais alguns anos (durando até os dias de hoje). Sua última grande chance, nos acréscimos do segundo tempo, seria interrompida, de forma milagrosa, pelo jovem arqueiro espanhol. Foi ali, negando a Liga dos Campeões ao Bayer que Casillas escrevia as suas primeiras páginas como goleiro do Real. O futebol, como dito anteriormente, não é feito de justiça. Se fosse teria presenteado o Leverkusen de 2002 com, pelo menos, uma conquista.




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