Erwin Kostedde, o primeiro negro a jogar pela seleção alemã

Personagem pouco conhecido, o jogador acumulou grandes feitos durante sua carreira e deixou sua marca em todos os clubes que passou

Há grandes histórias que foram pouco contadas. No futebol alemão se tem várias. Entre elas, a de Erwin Kostedde. Hoje pouco conhecido, Kostedde já foi protagonista de grandes feitos, como por exemplo ter sido o primeiro jogador negro a atuar pela seleção de futebol da Alemanha. No entanto, foi rapidamente esquecido com o passar do tempo e chegou a viver um triste episódio, quando já aposentado foi vítima de racismo e preso injustamente, um pesadelo em sua vida. 

Filho de mãe alemã e de um soldado americano que chegou à Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra, Erwin Kostedde foi um homem negro em uma época delicada. Em uma Alemanha ainda dividida, com grande polarização política e de parte da sociedade muito preconceituosa, se aventurou no futebol, caminho raro a atletas negros naqueles tempos. Em 1965 começou a trilhar sua carreira profissional pelo Preussen Münster, clube de sua cidade natal. Pelas Águias rapidamente se destacou e marcou 18 gols em 35 jogos. Após dois anos em Münster, acertou transferência ao MSV Duisburg, onde jogou por uma temporada e chamou a atenção do futebol belga.

Entre a Bélgica e a Alemanha, sucesso, idolatria, muitos gols e o nome cravado na história

Após a rapida passagem pelas Zebras de Duisburg, Kostedde se transferiu ao Standard Liège, um dos clubes mais tradicionais da Bélgica. Por lá, o atacante marcou época e entre 1968 e 1971 marcou expressivos 43 gols em 51 partidas, ajudando os Les Rouches a conquistarem três campeonatos nacionais e cravando seu nome na história do clube. O desempenho incrível fez o futebol alemão se interessar novamente pelo futebol do atleta, que voltaria ao país natal para defender o Kickers Offenbach. 

Erwin Kostedde chegou ao Kickers Offenbach como um meteoro. Ajudou o clube no acesso à Bundesliga e foi o principal jogador da equipe durante os quatro anos em que atuou lá. Foi o ídolo e grande arma ofensiva de um elenco modesto que fez campanhas sólidas de meio de tabela na elite até o rebaixamento em 1976. Ao todo, foram 80 gols em 123 jogos. Atuações tão chamativas que lhe renderam três convocações para a seleção nacional, feito que ficou marcado para sempre no futebol alemão: Erwin foi o primeiro jogador negro a ser convocado e a entrar em campo pela Die Mannschaft.

Após o rebaixamento do Kickers Offenbach, Kostedde saiu como ídolo e passou por Hertha Berlin e Borussia Dortmund, sempre marcando seus gols e correspondendo às expectativas. Em 1978 voltou ao Standard Liège em uma rápida passagem e depois partiu rumo a França, onde defendeu o Laval, e foi artilheiro da Ligue 1 1979-80 com 21 gols. Novamente de volta a Alemanha no ano seguinte, defendeu também o Werder Bremen - com 38 gols em 75 jogos - e por fim encerrou sua carreira no VfL Osnabrück fazendo o que sabia de melhor: gols.

Kostedde em campo pelo Kickers Offenbach pela Bundesliga (Divulgação/OP)


Os anos após a aposentadoria e o triste episódio de racismo

Em 1990, quando já estava aposentado há quase uma década, Erwin Kostedde foi acusado injustamente de ter assaltado uma galeria devido a cor de sua pele. O ex-jogador foi preso por seis meses e após conseguir provar sua inocência, foi solto e recebeu uma indenização de apenas 3 mil marcos alemães. O ínfimo valor não serviu de nada, já que Erwin perdeu todos seus investimentos durante o tempo em que ficou preso - segundo o próprio, mais de 1 milhão - e saiu da cadeia acumulando milhares em dívidas.

Em entrevista à Stern em 2001, Kostedde ainda relatou que recebeu um convite para atuar pela seleção da Bélgica:
Quando joguei pelo Standard Liège na Bélgica, tudo foi mais fácil. Eles tinham tantos africanos de suas colônias, então eu não senti o racismo. Eles até queriam me tornar belga e me levar para a Copa do Mundo. Mas eu realmente queria me tornar um jogador da seleção da Alemanha.

Erwin Kostedde também relatou o esquecimento que teve nos anos após sua gloriosa e sólida carreira e não escondeu sua decepção:

Naquela época, eu tinha orgulho de ser um jogador de seleção. Hoje os meninos não me conhecem mais. Sou tratado como qualquer outra pessoa de cor.


Por mais que o público médio não conheça sua história, Erwin Kostedde, negro, foi ídolo em uma época em que o racismo era infelizmente ainda mais comum do que é hoje. Atacante, letal, não perdoava as defesas adversárias. Soube sair das armadilhas dos zagueiros e da vida. Exemplo de gols, de luta e determinação.



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