Alemanha garante primeira posição e vai ao mata-mata

A primeira fase da Copa do Mundo se encerrou e a Seleção Alemã passou bem nos primeiros testes, embora a impressão final seja negativa. O nervosismo da estreia foi superado rapidamente com uma goleada por 7 a 1 contra Curaçao e a Alemanha mostrou resiliência e força no banco de reservas para virar uma partida dura diante da Costa do Marfim na segunda rodada — os resultados do grupo garantiram a classificação antecipada como líder. O encerramento da primeira fase, contra uma seleção equatoriana que precisava da vitória para sonhar com a classificação, trouxe a pior exibição alemã na Copa do Mundo: vimos uma equipe instável defensivamente e com muita dificuldade para criar chances. À beira do mata-mata, que se inicia neste domingo (28/06/26), a Alemanha deixa claro quais são suas virtudes e defeitos na luta pelo pentacampeonato mundial.

Jogadores alemães comemoram após vitória contra a Costa do Marfim — Foto: Michael Reaves/Getty Images

A estreia contra Curaçao deu o indicativo sobre o que esperar da equipe treinada por Julian Nagelsmann e o jogo seguinte, contra a Costa do Marfim, ajudou a confirmar algumas impressões. No setor ofensivo, mantém-se a ideia de aproximar jogadores e construir muitas jogadas pelo corredor central, explorando a elevada qualidade técnica do elenco e o conforto de seus jogadores em espaços reduzidos. Segundo relatório oficial da FIFA, a Alemanha é uma das seleções de menor distância média entre seus jogadores quando adentram o terço final do campo, com uma largura média de aproximadamente 39 metros (para efeito de comparação, a Seleção Brasileira registra 46 metros nessa mesma estatística).

Exemplo de aglomeração à esquerda para criar jogadas — Reprodução: Cazé TV

Defensivamente, no entanto, novos alertas apontam para um problema antigo: a necessidade de conter melhor transições ofensivas adversárias. Antes de assumir controle sob a partida, depois da primeira pausa para hidratação, a Alemanha sofreu ataques perigosos de Curação, por exemplo. A Costa do Marfim, uma seleção mais qualificada, também causou problemas ao retomar posse e verticalizar jogadas contra a Alemanha e poderia inclusive ter vencido a partida a partir dessa ideia: aos 87 minutos, com o placar em 1 a 1, uma transição em que Jonathan Tah foi superado por um extremo marfinense gerou uma grande oportunidade de gol. No terceiro jogo, novos problemas: Nilson Angulo e John Yeboah causaram muita instabilidade no setor defensivo alemão, ainda que a partida tenha sido disputado em um contexto de menor importância para a Alemanha (garantida no primeiro lugar do grupo). A fragilidade não chega a ser novidade: a última vez em que a Seleção Alemã terminou uma partida de Copa do Mundo sem sofrer gols foi na final de 2014!

Exemplo de transição ofensiva adversária que gera chance de gol — Reprodução: Cazé TV

Um segundo ponto de atenção diz respeito ao posicionamento de Joshua Kimmich. Embora atue em função semelhante e em estrutura similar no FC Bayern durante a fase ofensiva, construindo próximo dos zagueiros, suas responsabilidades defensivas diferem bastante do que acompanhamos no clube. Ao defender como lateral direito, acaba suscetível a confrontos diante de extremos explosivos e dribladores: ele foi superado por Yan Diomandé no lance que originou o gol da Costa do Marfim, por exemplo. Pode-se argumentar também que faria mais sentido tê-lo mais perto do terço final, explorando sua capacidade de passe no lado forte alemão, à esquerda.

Kimmich corre atrás de Diomandé em jogo da Copa do Mundo — Foto: Michael Reaves/Getty Images

A ausência de Nico Schlotterbeck, que sofreu uma lesão ligamentar na segunda rodada, representa um novo percalço no caminho alemão rumo ao penta mundial. Titular, ele deve ser substituído por Antonio Rüdiger para o restante da Copa do Mundo — Waldemar Anton e Malick Thiaw são as outras opções para a zaga. A qualidade da construção sofreu um baque grande com a ausência do zagueiro do Borussia Dortmund e o jogo contra o Equador não foi tão fluido como nas primeiras rodadas. O desafio do treinador Julian Nagelsmann, com todo esse contexto, é balancear melhor o poderio ofensivo da Alemanha com as responsabilidades defensivas da equipe, assumindo riscos que compensem possíveis debilidades.

OS DESTAQUES INICIAIS

Os principais jogadores da Alemanha até aqui são, curiosamente, três estreantes na maior competição do planeta: Nathaniel Brown, Felix Nmecha e Deniz Undav. São histórias diferentes, mas que causam um impacto semelhante na trajetória alemã.

O lateral esquerdo desbancou David Raum na competição por um posto no time titular e recompensou o treinador com um par de boas exibições. O impacto em sua estreia foi imediato: gol e assistência contra Curação. No jogo seguinte, contra a Costa do Marfim, novamente uma atuação sólida e que por muito pouco não acaba com outro gol marcado. A Alemanha garantiu a classificação adiantada para a fase de mata-mata e Brown acabou poupado no último jogo da fase de grupos.

Nathaniel Brown comemora o seu gol marcado contra o Curaçao — Foto: Alexander Hassenstein/Getty Images

O volante Felix Nmecha não tem a mesma qualidade na distribuição de jogo que Kimmich e Pavlovic, mas foi decisivo para a classificação alemã com uma linda assistência para Deniz Undav virar a partida contra a Costa do Marfim (vídeo abaixo). Além disso, tem se destacado enormemente como um meio-campista de imposição física, chegada à área e conduções com dribles. Não seria exagero argumentar que o volante do Borussia Dortmund foi o melhor jogador alemão nos dois primeiros jogos, antes de entregar uma exibição bem ruim no terceiro jogo, inclusive falhando no primeiro gol do Equador.

No setor ofensivo, Deniz Undav já igualou o recorde de mais participações diretas em gols como substituto em uma Copa do Mundo (dois gols, uma assistência vs Curaçao; dois gols vs Costa do Marfim) e segue pedindo passagem no time titular da Alemanha, apesar de certa resistência do treinador Julian Nagelsmann. A situação gerou memes em solo alemão, onde torcedores repetiram o movimento de brasileiros envolvendo Carlo Ancelotti e Endrick. O impacto do atacante do VfB Stuttgart ao sair do banco de reservas mostra que tem qualidade para decidir partidas — seja partindo do banco ou iniciando jogos do mata-mata, deverá ser um nome importantes no restante da Copa do Mundo.

Nagelsmann observa o time, com Deniz Undav ao fundo — Foto: Alexander Hassenstein/Getty Images