Primeiro técnico da Seleção Alemã Feminina, Bisanz não imaginava que se tornaria uma lenda

Pioneiro, Gero foi o comandante da Seleção Alemã Feminina durante 14 anos

Bisanz posa com troféu da Eurocopa Feminina, o seu último titulo no comando da Seleção (Getty Images)

Se hoje a Seleção Alemã Feminina é, historicamente, a segunda maior potência mundial, somente atrás dos Estados Unidos, é, em grande parte, graças a Bisanz. Responsável não só pelos primeiros títulos, mas também pela formação de sua sucessora, Tina Theune  -  que seria ainda mais vitoriosa do que o próprio no comando da Frauen-Mannschaft  - , além de ter colaborado na criação de estruturas para o desenvolvimento da modalidade, como a Frauen-Bundesliga.


Nascido em 3 de novembro de 1935, em Konojady (à época, parte da Prússia Ocidental, hoje encorpa a Polônia), Bisanz, além de técnico foi, também, jogador -  de carreira modesta, é verdade  -  professor de esportes e escritor. Vestiu a camisa de, apenas, dois clubes: Colônia e Viktoria Colônia, ao mesmo tempo que também lecionava na Escola Otto-Kühne. 


Em 1971, somente dois anos após se aposentar dos gramados, começou a sua carreira de técnico no Bayer Leverkusen, onde ficou até 1973. Ainda trabalhou no TuS Lindlar e nas categorias de base do Colônia e da Seleção Alemã masculina, antes de assumir a feminina, em 1982.


Bisanz não tinha planos de comandar um esquadrão feminino. Para ele, conciliar os trabalhos na Seleção Alemã B (dissolvida em 1981 para formar uma Seleção Olímpica) e na Universidade Alemã do Esporte, em Colônia  -  onde formava futuros técnicos para DFB  - estava de bom tamanho. Inclusive, relutou em aceitar o convite para ser o primeiro treinador da Frauen-Mannschaft. A ideia não entusiasmou muito ele  -  nem sua esposa  -  no começo. Pediu a Federação um tempo para pensar e, então aceitou. 


O que ele não esperava era ficar no comando por 14 anos. Gero se via fazendo aquilo por 3 ou 4 anos, no máximo. Ele acreditava que seria possível construir uma estrutura sólida, no curto intervalo de 4 anos, para quem lhe sucedesse. Mas, logo descobriu que não seria. Embora já estivesse em prática sob a jurisdição da DFB há 12 anos, o futebol feminino ainda era embrionário. 


Quando Bisanz tomou à frente da Frauen-Mannschaft, ele tinha pouco ciência do que era a modalidade e das jogadoras que poderiam vir a ser úteis a longo prazo. No primeiro jogo da Seleção, em novembro, levou grande parte das jogadoras que atuavam pelo Bergisch Gladbach, o grande time da época. O resultado foi positivo, 5 a 1 pra cima da Suíça, em Coblença, Alemanha. Mas, a maioria das jogadoras, já estavam em estágios avançados de sua carreira. Jovens, eram pouquíssimas. E isso foi um dos empecilhos no começo. 


Bisanz também não tinha quem lhe ajudasse com treinos, trabalho psicológico ou coisas do tipo. Era tudo ele quem tinha que fazer. Foi assim durante 4 anos, até que a DFB começasse a tratar com mais profissionalismo a modalidade e Tina Theune, que foi aluna de Bisanz no curso de formação da Federação, chegasse para o ajudar.


Não ter uma base formada e bem entrosada  -  não havia muitas sessões de treino  -  condenou a Seleção a três anos e meio de insucessos. Foram, apenas, 5 vitórias em 21 jogos, sendo que só uma não ocorreu em amistosos, o que deixou a Alemanha de fora das duas primeiras edições de Eurocopa.


Somente a partir do momento que Bisanz tomou a iniciativa de realizar sessões de treinos especiais e individuais que as coisas passaram a mudar e os frutos a serem colhidos.


A Frauen-Mannschaft fez uma campanha quase perfeita nas Eliminatórias para Eurocopa de 1989, que seria realizada na Alemanha. Foram 4 vitórias e 2 empates nos 6 jogos disputados e a garantia da classificação para o torneio, que só contava com 4 seleções em suas primeiras edições  -  ou seja, era muito difícil garantir presença. 


A Euro'89 foi um divisor de águas para o futebol alemão feminino. Até então, a modalidade não era bem quista, tampouco tinha seus jogos mostrados na televisão, seja ela a pública ou a fechada. O próprio Bisanz não era levado muito a sério pelos seus colegas treinadores e alguns mecenas, como Udo Lattek e Uli Hoeness. Também não havia uma Bundesliga Feminina  -  existia, sim, um campeonato, mas com formato "pré-histórico", digamos. Tudo isso mudou a partir desta edição da Euro, vencida pela Seleção de Gero.


Contra a Itália, a Frauen-Mannschaft fez a sua estreia na competição. O jogo foi duro e teve de ser decidido nas penalidades, após empate por 1–1 no tempo regulamentar. A goleira Marion Isbert, à época jogadora do TuS Ahrbach, foi a heroína do dia: defendeu três cobranças e guardou a última das alemãs, garantindo a vitória por 4–3 nos penais. Cerca de 8 mil espectadores compareceram ao jogo, em Siegen, e mais de um milhão acompanharam pelo Das Erste (ARD), canal público do país. Foi a primeira vez que um jogo entre mulheres foi passado na TV alemã  -  o que não se repetiu na decisão (o canal exibiu apenas um resumo da decisão). Um momento histórico para a modalidade e para a equipe de Bisanz.


Na final, a Frauen-Mannschaft teve pela frente a atual campeã Noruega. Embate, na teoria, complicadíssimo e que tinha o lado nórdico como favorito. Mas, na prática, o jogo foi outro. A Alemanha conseguiu uma vitória tranquila, quatro a um. 


O melhor de tudo é que, o momento mágico que vivia a modalidade àquele instante, foi prestigiado por 23 mil pessoas presentes no Bremer Brücke, em Osnabrück  -  apesar de, algumas centenas ou milhares, estarem lá, apenas, esperando que alguma troca de camisa entre as atletas ocorressem, como disse a lenda Silvia Neid, certa vez, ao falar sobre o futebol feminino desta época.


Bisanz definiu a conquista como "a descoberta do futebol feminino na Alemanha em termos de visibilidade e valorização, porque um grande número de meninas posteriormente passaram a se inscrever em testes nos clubes e descobriram seu interesse pelo futebol". 


Bisanz levou a Frauen-Mannschaft a repetir a dose na Eurocopa em 1991 e 1995. Na primeira edição da Copa do Mundo, em 1991 terminou na quarta colocação (caiu nas semis para os EUA e, na decisão do terceiro lugar, a Seleção foi derrotada pela Suécia). Em 1995, terminou, vice-campeão, derrotado pela Noruega na finalíssima pelo placar de 2 a 0. 


Já em 96, nos Jogos Olímpicos de Atlanta (primeira vez que o futebol feminino esteve presente), realizou seus últimos jogos à frente da equipe. O resultado na competição foi aquém  -  a Seleção caiu ainda na fase de grupos, que tinha Noruega, Brasil e Japão.


"Foi quando eu disse a mim mesmo: o trabalho de desenvolvimento está concluído. Agora outros devem assumir e continuar o trabalho", disse Bisanz após as Olimpíadas, "Era meu trabalho estabelecer o futebol feminino internacionalmente com uma seleção nacional. As sementes cresceram", finalizou. 


Tina Theune, sua auxiliar durante 10 anos, assumiu o posto e levou a Frauen-Mannschaft a mais três títulos da Eurocopa e um da Copa do Mundo, em 2003.


Bisanz seguiu trabalhando no futebol após sair da Seleção, não mais como técnico e, sim, como chefe do treinamento de futuros técnicos da DFB, isso até 2000, quando foi substituido por Erich Rutemöller. 


Antes de se aposentar definitivamente, aos 70 anos, ainda serviu a UEFA em alguns treinamentos de técnicos. Em 2013, foi homenageado pela Federação Alemã com a entrega de uma medalha por seu "trabalho de vida" e a inclusão no Hall dos Treinadores Honorários da Seleção. No ano seguinte, aos 78 anos, Bisanz faleceu devido a um ataque cardíaco.


Gero Bisanz

Nascimento: 3 de novembro de 1935  -  Konojady, Prússia Ocidental

Morte: 17 de outubro de 2014  -  Overath, Alemanha

Títulos (pela Seleção Feminina): 3 Eurocopas (1989/1991/1995)

Honras: Primeiro técnico da Seleção Alemã Feminina (1982–1996); Medalha de Honra de Prata da DFB; Cruz do Mérito Federal (1996); Técnico Honorário da Seleção Alemã

Cartel (pela Seleção Feminina): 127 jogos, 83 vitórias, 17 empates e 27 derrotas


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