O Magdeburg de 1973-74, único clube da Alemanha Oriental a ser campeão europeu


O ano de 1974 foi épico para a Alemanha Ocidental no futebol. O país sediou a Copa do Mundo, venceu a competição e também viu o FC Bayern München vencer a Copa dos Campeões, atual UEFA Champions League. O que poucos sabem é que do outro lado, na Alemanha Oriental (DDR), o ano também foi de grandes êxitos. A seleção oriental disputou sua primeira Copa, justamente no lado vizinho, com direito a uma vitória sobre os anfitriões por 1 a 0. E no âmbito de clubes, uma das maiores zebras do futebol europeu: o 1.FC Magdeburg derrotou o poderoso Milan e se tornou campeão da Recopa Europeia, o único título europeu de um clube da Alemanha Oriental.

O Magdeburg viveu seu auge no início da década de 70. Naquela época, dominavam o futebol na Alemanha Oriental ao lado do Dynamo Dresden, clube com quem rivalizou e disputou a maioria dos títulos. Sob o comando de Heinz Krügel, o Magdeburg venceu seu primeiro título da DDR-Oberliga, o campeonato nacional, na temporada 1971-72. Além disso, o clube já vinha com uma boa sequência ganhando títulos de Copas e cedendo vários jogadores para a seleção da DDR. O bom momento levou o Magdeburg para as competições europeias, onde foram adquirindo experiência. Entre as participações, uma eliminação para a Juventus de Dino Zoff, Gaetano Scirea, Paolo Rossi, entre outros.

A campanha e o título

Heinz Krügel é sem dúvidas um dos maiores nomes da história do Magdeburg. Mentor dos grandes times e títulos do clube, costumava trabalhar com jogadores jovens e praticava um futebol bastante ofensivo. O título da DDR-Oberliga na temporada 71-72 contou com um elenco de uma média de idade de apenas 22,5 anos, o que credenciou aquele time o recorde de elenco mais jovem a ser campeão da Alemanha Oriental. Com o passar dos anos, os jogadores foram evoluindo e a equipe ficando cada vez mais forte.

Com essas credenciais, o Magdeburg disputou a Recopa Européia em 73-74. Competição de tiro curto, mata-mata com partidas de ida e volta, costumava ter boas zebras. Os Blau-Weiß encararam na primeira fase o NAC Breda, da Holanda. Após um empate sem gols no primeiro jogo, uma vitória por 2 a 0 serviu para o clube avançar na competição. Na segunda rodada, o Baník Ostrava da Tchecoslováquia. Após uma derrota por 2 a 0 na ida, o Magdeburg conseguiu repetir o placar na volta e com um gol na prorrogação, venceu por 3 a 0 avançando mais uma vez. Nesta altura o clube já havia alcançado as quartas de final da Recopa e o adversário seria o PFC Beroe Stara Zagora, da Bulgária, que havia eliminado o Athletic Bilbao-ESP, franco favorito naquela ocasião. Apesar disso, os comandados de Heinz Krügel não deram espaço pra zebra búlgara e após vencerem a ida por 2 a 0, bastaram empatar na volta por 1 a 1 selando a classificação para as semis. Entre os quatro semifinalistas, o Magdeburg era o grande azarão. Enquanto enfrentariam o Sporting-POR, Milan-ITA e Borussia Mönchengladbach-ALE mediriam forças na outra chave. Após um aguerrido empate por 1 a 1 em Lisboa, venceram a volta na DDR por 2 a 1 e garantiram vaga na final do campeonato pela primeira vez na história.

A final

Sensação e zebra daquela Recopa, o Magdeburg chegou à final contra o poderosíssimo Milan da lenda Gianni Rivera. Se os italianos possuiam um esquadrão com jogadores muito conhecidos, o Magdeburg também tinha seus craques. Jürgen Sparwasser, Wolfgang Seguin, Manfred Zapf, Jürgen Pommerenke, Axel Tyll... todos jovens e em ascensão. O jogo decisivo desta vez seria disputado em campo neutro e o De Kuip, em Roterdã, foi o estádio escolhido para sediar a final. O público pífio de 4.461 torcedores pode ser explicado por alguns fatores: a certeza dos torcedores do Milan que o poderoso time não daria chances pra zebra, a dificuldade dos cidadãos da DDR em obter permissão para sair do país - o governo permitiu que apenas 200 torcedores do Magdeburg viajassem para assistir ao jogo - são alguns dos motivos.


Apesar da baixa audiência, foi um bom e histórico jogo. De um lado o 4-3-3 ousado e ofensivo de Hanz Krügel, do outro o pragmático catenaccio de Giovanni Trapattoni. Uma partida equilibrada, com algumas chances de gol pra ambas equipes. Quando a primeira etapa caminhava para seu fim, o primeiro passo pra história: Enrico Lanzi, defensor rossonero, marcou um gol contra aos 43 minutos ao tentar interceptar um cruzamento e o Magdeburg saiu na frente na grande decisão. Com um estilo de jogo claramente reativo, o Milan teve que sair pro jogo no segundo tempo, mas sem muito sucesso. Além de atacar com efetividade, o Magdeburg também defendia muito bem. Se as estrelas do Milan não conseguiam decidir a final, coube a Wolfgang Seguin cravar seu nome na história: aos 30 minutos do segundo tempo, o gol do título. 2 a 0 para as zebras e o que restava era a incredulidade dos italianos. Pareciam não acreditar no trágico desfecho que tomava a decisão. Dali pro fim da partida, os azarões dominaram e não sofreram grandes riscos. Há quem diga que o icônico Gianni Rivera foi encontrado no bolso de Jürgen Pomeranke. Ao soar do apito, fim de jogo. Festa do Magdeburg, tristeza dos italianos. Festa do primeiro e único clube da Alemanha Oriental a ganhar um título europeu. Festa pra pouco mais de 4 mil pessoas, é verdade, o que é uma grande pena, afinal, histórias como essa merecem mais testemunhas.






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