Leipzig e Salzburg: clubes que nasceram irmãos, mas andaram separados na Liga Europa

Leipzig perdeu por 1 a 0 para o Salzburg na 5ª rodada da fase de grupos da Liga Europa | Foto: Getty Images

Dois clubes criados pela mesma mãe, que cresceram juntos, mas hoje precisam provar ao mundo que são adultos em rumos distintos. Essa breve história serve como comparação para a saga vivida por RB Leipzig e Red Bull Salzburg diante da Uefa nos últimos anos, culminando com a participação na Liga Europa desta temporada. Ambos foram formados pela empresa do famoso energético e hoje vivem cercados por questionamentos relacionados ao conflito de interesses que pode existir quando as duas equipes entram em campo pela mesma competição. Mas, ao menos na fase de grupos do torneio europeu, eles não deram motivos para uma teoria da conspiração.

As histórias de Leipzig e Red Bull Salzburg são recentes, mas com sucessos quase instantâneos. Em questão de anos, o clube alemão saiu da quinta divisão e chegou à Bundesliga, alcançando inclusive um segundo lugar em sua primeira temporada na elite. O caso no país vizinho é ainda mais impressionante, com nove títulos do campeonato nacional desde 2007, incluindo os cinco últimos. Nesse período, houve diversos episódios em que as duas agremiações deixaram evidente sua proximidade. No entanto, o encontro das duas equipes em uma competição europeia foi se tornando cada vez mais provável, e elas tiveram que começar a percorrer caminhos distintos para que as duas pudessem disputar o mesmo torneio. Confira abaixo as principais momentos dessa trajetória de intimidade e distanciamento:

Criação e crescimentoO clube de Salzburg é mais velho da relação. A Red Bull assumiu o Austria Salzburg em 2005, contando com um time que já estava na elite do país. Por isso, os títulos importantes puderam vir rapidamente. A barreira que ele parece não conseguir superar são os playoffs que dão vaga para a fase de grupos da Champions League. Onze vezes consecutivas o clube participou desta fase e não se classificou. Em Leipzig, a empresa de energéticos assumiu a vaga do SSV Markranstädt na quinta divisão alemã em 2009. A ascensão do RB foi meteórica, chegando à Bundesliga em 2016 e logo na primeira temporada alcançando uma vaga na fase de grupos da Champions League, algo que o parceiro da Áustria ainda luta para conquistar.

Amigos nos negócios
Nesse período de crescimento, as administrações dos dois clubes andaram de mãos dadas e não é difícil entender o motivo. Escudos e uniformes são muito semelhantes e tudo remete à empresa de bebidas energéticas. Entre dirigentes de Salzburg e Leipzig, muitos trabalhavam para as duas equipes e em alguns casos eram também funcionários da Red Bull. O caso mais emblemático é o de Ralf Rangnick, atual treinador e diretor esportivo do time alemão. Por três anos, entre o meio de 2012 e o meio de 2015, ele foi diretor esportivo de ambos os clubes. Tudo sobre os dois times de futebol, incluindo transferências de jogadores, passava pelas mãos dele.

Um dos reflexos mais evidentes da proximidade entre as administrações era exatamente a negociação de jogadores, que movimenta muito a fronteira entre Áustria e Alemanha, normalmente em benefício da equipe alemã. Jogadores fundamentais para o Leipzig nos últimos anos, como Naby Keita, Páter Gulácsi e Dayot Upamecano, foram comprados do Salzburg. Nas temporadas 2014/15, 2015/16 e 2016/17, aconteceram 16 transferências entre os clubes. Mais recentemente, esse número caiu de forma drástica, dando o tom de como os dois lados vem buscando a separação.



Necessidade de separação
Tamanha proximidade passou a se tornar um problema quando surgiu a perspectiva dos dois clubes ligados à Red Bull competirem em um mesmo torneio continental. Para garantir a integridade das suas competições, a Uefa determina que “ninguém pode estar simultaneamente envolvido na gestão, administração e/ou performance esportiva de qualquer outro clube participante em uma competição de clubes da Uefa”. Além disso, “nenhum indivíduo ou entidade legal pode ter controle ou influência sobre mais de um clube participante de uma competição da Uefa”.

Da forma como RB Leipzig e Red Bull Salzburg eram administrados, eles claramente descumpriam as normas e seriam impedidos de disputar a mesma competição europeia. Então decisões importantes precisaram ser tomadas para romper os laços entre os dois irmãos. Em março de 2015, os austríacos anunciaram que a Red Bull estava abrindo mão dos seus direitos de dirigir o clube, passando a ser, oficialmente, apenas o patrocinador principal. Enquanto isso, a empresa manteria o controle sobre o time alemão.

Eram necessárias também mudanças no quadro de funcionários. Quem atuava para as duas partes, passou a se dedicar a apenas um dos lados. Ao fim da temporada 2014/15, a penúltima do Leipzig na segunda divisão, Ralf Rangnick deixou de ser o diretor esportivo do Salzburg para ficar apenas pelo clube alemão. Em uma entrevista concedida no final de agosto de 2014, o próprio dirigente mostrava estar consciente do seu futuro ao dizer que não poderia trabalhar por duas equipes que disputam uma mesma competição.

A decisão da Uefa
O fim da temporada 2016/17 chegou com o Salzburg como campeão austríaco e o Leipzig como segundo colocado na Bundesliga alemã. A Uefa se viu obrigada a se posicionar em relação às duas equipes porque ambas, em campo, se classificaram para a Champions League. Em junho do último ano, a entidade chegou à conclusão que as agremiações, parceiras por tantos anos, já eram independentes o suficiente para disputar um mesmo troféu. Naquela oportunidade a decisão nem teve grande impacto porque o Salzburg caiu antes da fase de grupos (pra variar). De qualquer forma, estava aberta, em definitivo, a porta de entrada para os dois clubes numa mesma competição. 

Para que as regras da Uefa fossem quebradas “a Red Bull precisaria ter a capacidade de exercer influência decisiva na tomada de decisões relevantes nos dois clubes, ou um dos dois clubes precisaria ter a capacidade de exercer influência decisiva na tomada de decisões relevantes dele próprio e do outro clube. Nenhuma possibilidade foi provada satisfatoriamente”, sentenciou documento da entidade máxima do futebol europeu.

Decisão da Uefa permitiu que Leipzig e Salzburg disputassem a mesma competição europeia | Foto: Getty Images

O encontro na Liga Europa
Para a atual temporada, os dois times ganharam uma vaga para a fase de grupos da Liga Europa. E não bastava disputar o mesmo campeonato. A aleatoriedade do sorteio dos grupos tinha que colocar os dois na mesma chave para ver a polêmica ganhar força, apesar da Uefa já ter tomado seu veredito. Estariam Salzburg e Leipzig realmente independentes e livres da possibilidade de uma interferência da Red Bull visando beneficiar o parceiro? Ainda não me arrisco a dar uma resposta definitiva, mas a participação dos dois times na competição indicou que sim. 

Ralf Rangnick não deu muita bola para a Liga Europa, preferindo poupar alguns jogadores para priorizar o campeonato alemão. O resultado foi uma eliminação na fase de grupos da competição europeia, incluindo duas derrotas para o Salzburg, que teve 100% de aproveitamento e não deu brechas para qualquer teoria indicando um beneficiamento ao Leipzig. Os dois se enfrentaram na penúltima rodada do grupo, com o clube austríaco a um passo da classificação e o alemão brigando ponto a ponto pela segunda vaga. Seria uma ótima oportunidade para a Red Bull interferir, mesmo discretamente, e tentar viabilizar um placar que ajudasse seus dois parceiros. Mas a vitória do Salzburg deu um grande empurrão para o Celtic.

Na última rodada, o Salzburg até deu uma força para o Leipzig ao vencer o Celtic. Faltou o Leipzig fazer a sua parte para também se classificar. Apesar de só um deles continuar disputando o título, os dois de certa forma ficaram engrandecidos nesta Liga Europa. Ainda vai haver desconfiança quanto a uma eventual interferência externa caso os dois clubes voltem a se encontrar num futuro próximo, mas a imagem de ambos saiu da Liga Europa sem arranhões e a postura apresentada nesta fase de grupos serve como bom precedente. Continuar seguindo caminhos diferentes é importante para Leipzig, para Salzburg e para o futebol.

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