A recuperação de um Bayern dominante


Dia 29 de setembro de 2019, sexta rodada da Bundesliga. Com uma vitória fora de casa, o Bayern de Munique assumia a liderança pela primeira vez na temporada e seu artilheiro, Robert Lewandowski, já somava incríveis dez gols. Existe um clube na Alemanha onde tudo isso pode não ser suficiente para trazer paz aos jogadores e comissão técnica. E justamente ele garantiu seu oitavo título alemão consecutivo pouco menos de nove meses depois sob ares muito mais amenos.

O Bayern assumiu a ponta da tabela sob críticas porque a vitória fora de casa em questão aconteceu em Paderborn, contra o lanterna do campeonato, por 3 a 2. O resultado poderia ser mais tranquilo, mas os atacantes cansaram de perder gols e no 2º tempo a defesa cedeu um contra-ataque atrás do outro. Uma impressão digital dos piores momentos da equipe dirigida por Niko Kovac e que mereceu reclamações inclusive de um de seus jogadores mais importantes. "Precisamos constatar que ainda não conseguimos ser dominantes durante 90 minutos em uma partida nesta temporada", lamentou um exigente Joshua Kimmich.

A situação ainda ia piorar nas semanas seguintes, apesar da goleada por 7 a 2 contra o Tottenham pela Champions League três dias depois do jogo em Paderborn. Tropeços no campeonato alemão deixaram Kovac novamente desconfortável no cargo, até que o humilhante 5 a 1 sofrido diante do Eintracht Frankfurt provocou a demissão do treinador. O assistente dele, Hansi Flick, assumiu o posto e transformou a temporada, usando o mesmo elenco para transformar o Bayern em uma equipe dominante novamente.

Uma das grandes qualidades do time montado por Flick - e que traz lembranças da equipe da tríplice coroa com Jupp Heynckes em 2013 - é não deixar o adversário ter conforto para sair da defesa. Yan Sommer só cometeu a lambança no primeiro gol do Bayern contra o Borussia Mönchengladbach na Allianz Arena porque Joshua Zirkzee estava lá pra trazer um incômodo. A forte marcação no ataque ajudou o Bayern a ser mais dominante não só por recuperar a bola mais perto do gol adversário, mas principalmente por cortar contra-ataques perigosos na raiz.


Justo dizer que os melhores momentos de Kovac no clube também tinham essa marca, mas em vários momentos ela não era vista. O lance que determinou sua demissão começou uma bola perdida pelo Bayern na grande área adversária logo no início da partida contra o Frankfurt. Os jogadores não estavam posicionados para evitar o contra-ataque e em questão de segundos Jerome Boateng ficou em apuros. Entre dar o combate e deixar o atacante ficar na cara do gol, ele optou pela primeira opção, cometeu falta para cartão vermelho e aí estavam criadas as bases para o placar de 5 a 1. Com Flick esse problema foi bem combatido, apesar de vez ou outra ele ainda aparecer para assombrar a torcida e levantar suspeitas sobre as chances de sucesso na Europa.


A escalação do Bayern no jogo que causou a saída de Kovac é muito parecida com a que Hansi Flick vem usando nesta Bundesliga. A grande diferença é a presença de Philippe Coutinho. Na goleada em Frankfurt, pela 10ª rodada, ele atuou mais centralizado no meio-campo, enquanto Thomas Müller ficava mais preso ao lado direito. A primeira vez como titular sob o comando de Hansi Flick foi na 12ª rodada, mas a essa altura os papéis já estavam se invertendo: alemão era o jogador mais próximo do centroavante e o brasileiro ficava mais perto da lateral.

O brilho de Coutinho não foi maior que a simplicidade de Müller. As assistências do "intérprete de espaços" não vão ganhar vídeos no YouTube pela beleza do passe, mas vão aparecer em muitos jogos. Toques curtos para tabelar, precisão no cruzamentos de primeira e uma incrível velocidade de raciocínio para definir a jogada rapidamente dentro da grande área ou nas fronteiras dela, mesmo com o corpo desequilibrado. Assim ele renasceu no Bayern e se voltou a ser o companheiro ideal para Lewandowski no centro do ataque, ainda que as portas da seleção da Alemanha estejam fechadas.


Além da contribuição com a bola, Müller também é valioso na estratégia de não dar conforto para o adversário sair da defesa. Ninguém no Bayern se dedica tanto e tão bem à marcação no campo de ataque - e muitas vezes em outras partes do gramado também - quanto ele aos 30 anos. Contra o Hoffenheim, jogando fora de casa, foi ele o responsável pela defesa adversária se complicar no toque de bola.


Se para Müller a chegada de Flick representou mais holofotes, para Lewandowski a troca de treinador significou que ele não precisava mais carregar quase sozinho a produção de gols do Bayern. Mesmo quando as coisas não funcionavam ao seu redor, ele dava um jeito - talvez a maior credencial dele para concorrer aos grandes prêmios individuais da Europa nesta temporada. Contra o Schalke, ainda pela 3ª rodada da Bundesliga, ele marcou os três gols do jogo - incluindo um em bela cobrança de falta - e foi o autor de cinco das seis finalizações no alvo da equipe. O centroavante polonês marcou pelo menos um gol nas 11 primeiras rodadas do campeonato alemão, mas dali em diante ele não precisou mais quebrar recordes absurdos para manter o time no topo. O Bayern como um todo havia se tornado mais dominante.


Entre os jogadores, a maior novidade no time do Bayern do 8º título consecutivo da Bundesliga não dava nem a impressão de que poderia ter um crescimento tão grande na temporada. Alphonso Davies chegou em Munique para ser um ponta, foi escalado ainda por Nico Kovac na lateral-esquerda e a impressão é que ele ocupa as duas posições ao mesmo tempo graças à velocidade que permite, em questão de segundos, arriscar um drible na linha de fundo do ataque e fazer um desarme na defesa parando um contra-ataque.

O segundo jogo contra o Paderborn na temporada também foi 3 a 2 para o Bayern, com roteiro até mais dramático que o de setembro de 2019. Mas o clima era outro na Säbener Strasse, com vitórias bem mais tranquilas nas rodadas anteriores. Mais tarde, já com portões fechados na Allianz Arena, foi a vez do Eintracht Frankfurt sofrer cinco gols e o jogo seguinte praticamente definiu o título. Em Dortmund, Joshua Kimmich fez mágica para marcar o gol da vitória. O jogador mais crítico do momento ruim da equipe foi o herói no duelo mais decisivo do campeonato. Aquela não foi a melhor atuação dos bávaros, mas o resto da Bundesliga já tinha voltado a temer o Bayern.


Os pontas já não são mais as grandes estrelas como há algumas temporadas. O que não muda é a vontade de estar sempre atacando, e a equipe de Hansi Flick consegue fazer isso de diferentes maneiras: jogadas pelos lados com a alta velocidade de Davies ou os apoios de Benjamin Pavard, passes pelo alto dos zagueiros - como no gol do título contra o Werder Bremen - ou tabelas com Lewandowski e Müller na entrada da área. Esses dois últimos sim, as estrelas em campo de um Bayern que estava ficando pra trás, mas logo voltou a ser dominante na Bundesliga.

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