O futebol feminino alemão: de ridicularizado à potência

Para a Federação Alemã de Futebol (DFB), 2020 marca os 50 anos do futebol feminino na Alemanha. Inclusive, tem promovido a campanha "50 Jahre Frauen Fußball" nas redes sociais e reunido personalidades históricas para entrevistas - que são bem legais, diga-se (clique aqui para acessá-las).

Mas, antes mesmo de ser introduzido ao estatuto da DFB, o futebol feminino já era praticado na Alemanha. Pelo menos desde 1922, o que são quase 100 anos, semeado em colégios universitários, embora o primeiro registro de um jogo seja de 1927, onde uma 'equipe de Munique' venceu uma 'equipe de Berlim' por 2 a 1.

O primeiro clube, de fato, surgiu em 1930, em Frankfurt, batizado 1. DDFC Frankfurt (1. Deutschen Damen Fußballclub Frankfurt) por Charlotte Specht, uma amante do jogo, fanática pelo FSV Frankfurt e mente por trás do DDFC. Acabou não dando certo nem a curto prazo, após um ano foi dissolvido, refém do preconceito e demais barreiras existentes à época, como a DFB, que não fez o mínimo esforço para ajudar, ao contrário disso, recusou o pedido de filiação da agremiação quando solicitada. Passaram-se os anos, nenhum novo clube foi fundado, o regime nazista ascendeu e o futebol feminino foi banido por ser considerado inapropriado. Só alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, que novos clubes passaram a surgir. Para o lado ocidental, o titulo mundial conquistado pela Seleção de Sepp Herberger foi o grande estopim. Enquanto na DDR (oriental), não houve nada semelhante e até demorou mais para que a categoria passasse a ganhar certa atenção. 

O problema é que a DFB resolveu intervir em 1955. A Federação decidiu proibir que seus afiliados tivessem departamentos de futebol feminino ou cedessem suas instalações para equipes independentes e, também, seus árbitros de apitarem jogos entre mulheres. "Na luta pela bola, a graça feminina desaparece, corpo e alma sofrem, inevitavelmen, danos e a exibição do corpo viola a dignidade e a decência", justificou a Federação.
O futebol não é um esporte feminino. Nunca lidaremos com este assunto seriamente. Isto não é um assunto da DFB. Se em algumas regiões, uma dúzia de mulheres se juntam e fundam um clube de futebol, isso é problema delas. O futebol traz sérios riscos de lesões e mulheres devem praticar, apenas, atividades que não apresentam algum tipo de ameaça à integridade, como atletismo, natação ou tênis; Peco Bauwens, presidente da DFB entre 1949 e 1962, tempo antes de aplicar a proibição
O período de proibição (1955–1970) foi bastante complicado para quem jogava, apesar de a categoria ter ganhado certa visibilidade a nível nacional e internacional. A DFB e algumas das Associações Regionais tentaram tudo que puderam para impedir que mulheres jogassem, por vezes recorrendo à polícia e a ameaças à cidades que cediam espaço para que ocorressem as disputas das partidas, como Munique e Berlim, e clubes.

Ainda em 1955, a FNV (Associação de Futebol do Baixo Reno) usou a força policial como instrumento para acabar com um jogo entre DFC Duisburg-Hamborn e Gruga Essen, que acontecia no campo do Hertha Hamborn (masculino). Também ocorreram expulsões de campos de treinamento e atrasos de jogos por terem trancado portões de estádios e barrado a entrada dos ônibus que levavam as jogadoras para o local - e a polícia ainda fazia questão de escoltá-los de volta para origem do trajeto.
Muitas vezes, os portões dos campos estavam trancados e a polícia escoltava o ônibus, que nos levava ao estádio, para nosso local de origem. Às vezes chorávamos por querer jogar e não poder; Lore Barnhusen, ex-atleta do extinto Kickers Essen. Lore ainda menciona que, por vezes, esperavam a polícia dar meia volta para voltarem ao estádio: nos diziam para ficar calmas, que voltaríamos ao campo quando a polícia desaparecesse, então quando acontecia, voltávamos, nos vestíamos e jogávamos
Em 1956, surgiu a primeira Associação de Futebol Feminino da Alemanha Ocidental (Westdeutschen Damenfußballverband), presidida por Willi Ruppert, um empresário de Essen, que viu no futebol feminino uma oportunidade de negócio. No primeiro ano à frente da WDFV, Willi deu um passo importante para a categoria: formou uma seleção com as melhores jogadoras dos filiados e marcou um amistoso contra a Holanda. A partida foi realizada em Essen, cidade sede da Associação. O resultado foi favorável às alemãs-ocidentais, vitória por 2 a 1. 18 mil pessoas compareceram ao estádio Mathias Stinnes para vê-las jogar. O duelo voltou a se repetir em 1957, em Munique. O time alemão novamente venceu, agora por 4 a 2. Cerca de 17 mil pessoas estiveram presentes no estádio. Um tremendo sucesso - o que irritou a DFB. 

A Federação enviou uma carta para o prefeito de Munique dizendo que a atitude da cidade havia sido como "uma facada pelas costas em sua luta contra o futebol feminino", junto à carta, uma ameaça: caso voltasse a se repetir, Munique não receberia mais nenhum grande evento da DFB.

Fotografia do time que representou a Alemanha Ocidental contra a Holanda em setembro de 1957 
No mesmo ano, a DFB fez a mesma ameaça a Berlim por ter sediado um Campeonato Europeu de Seleções Femininas, organizada por uma Associação Internacional de Futebol Feminino (ILFA), fundada em Nuremberg. Holanda, Alemanha Ocidental, Áustria e Inglaterra eram os únicos membros da ILFA e, consequentemente, os participantes do torneio. Também em 1957, surgiu a segunda Associação de Futebol Feminino na Alemanha (DDFB), criada, novamente, por Ruppert, por ter sido destituído do cargo na WDFV. 

O Campeonato Europeu, todavia, foi um fracasso. A ILFA projetou que os 3 jogos, semis e final levariam, pelo menos, 40 mil ao Poststadion (icônico estádio de Berlim que recebeu o evento) e renderia lucro de 20 mil marcos alemães (antiga moeda alemã), no entanto, apenas 8 mil estiveram nos jogos e a receita foi de só 8. 200 DM. O valor não cobriu os gastos e acabou resultando em mandados de prisão para os organizadores por suspeita de fraude - um deles era Ruppert, que desapareceu após a acusação. A Inglaterra levou a melhor nas quatro linhas, sagrou-se campeã surrando a equipe alemã por 4 a 0 na final. 

Em 1958, surgiu a terceira Associação Alemã de Futebol Feminino (DDFV), liderada por Josef Floritz, um empresário de Munique e ex-técnico do modesto Borussia Neunkirchen. A DDFV organizou mais de 150 amistosos contra seleções de outros países, na Alemanha e no exterior. E as jogadoras eram pagas por Floritz para jogar, o valor era pequeno, mas já era alguma coisa. 
Floritz pode ter ganho um bom dinheiro, ao mesmo tempo que era arriscado para ele não receber nada ou quase nada se nenhum ou poucos espectadores comparecessem. Mas isso (receber pouco e gerar lucro) não me incomodava. Simplesmente por podermos realizar nosso sonho de jogar futebol. Foi o melhor momento que tive; Christa Kleinhans, ex-jogadora alemã, que serviu à Seleção da DDFV
A DDFV fechou as portas em 1965, quando Floritz faleceu. 4 anos antes, a WDFV já havia encerrado suas atividades, enquanto a DDFB só o fez em 1966. 

A nível de clubes, o mais "bem-sucedido" do período foi o Fortuna Dortmund, que inclusive cedia a maior parte das atletas para WDFV e, posteriormente, DDFV formarem seus onze nacional. Embora não tenha chegado a competir durante todos os 15 anos de proibição - iniciou suas atividades em 1955 e encerrou 10 anos depois, porque as jogadoras decidiram parar, por motivos diferentes, como casamento e cansaço acumulado. 

Durante os 10 anos em atividade, o Fortuna construiu seu nome entre turnês em países vizinhos e, obviamente, jogos em seu distrito. Sempre levava mais que mil pessoas às arquibancadas. 

Em 31 de outubro de 1970, a DFB anunciou o fim da proibição com algumas condições: chuteiras não poderiam ter cravos, os jogos seriam em 2 tempos de 30 (posteriormente dois de 40, até que passa-se a ser dois de 45 na década de 1990) e realizados, apenas, em boas condições climáticas, a bola de jogo teria que ser em tamanho juvenil e uma pausa de seis meses seria acrescida ao calendário. Havia, também, uma determinação para que as jogadoras usassem sutiãs especiais para proteger os seios, mas foi descartada.
As regras mais atrapalhavam do que nos encorajavam a jogar; Monika Koch-Emsermann, ex-jogadora e técnica do FSV Frankfurt
A maioria das regras não durou por muito tempo -  justamente por não serem necessárias e, em certo ponto, discriminatórias- e a única que ainda existe é a famosa pausa de inverno, em menor prazo (cerca de 2 meses), é claro.

Meses antes da DFB anunciar o fim da proibição, uma Copa do Mundo não-oficial ocorreu na Itália, onde a Alemanha Ocidental foi representada pelo SC Bad Neuenahr, clube que se ôpos à DFB para formar sua equipe e era, constatantemente, ameaçado com multas pela Federação.

Quando a DFB suspendeu a proibição, cerca de 50 mil mulheres espalhadas pela Alemanha Ocidental jogavam futebol. Em 1975, já eram 215 mil. Apesar disso, algumas figuras importantes do futebol masculino ainda se puseram contra, como Gerd Müller, Uwe Witt (ex-jogador do Hertha Berlin) e Helmut Schön, técnico da Nationalmannschaft entre 1964 e 1978, e a própria DFB não deu muita bola por um período.

Para o Bomber, as mulheres tinham, apenas, que cozinhar e ficar em casa. Para Schön, pessoas do gênero oposto não eram de natureza adequada para a prática do futebol. Já para Witt, as mulheres transformariam o esporte "deles" em circo.

Apesar da proibição ter sido abolida em 1970, foram necessários mais quatro anos para que um Campeonato Alemão de Futebol Feminino fosse introduzido, apenas torneios regionais foram disputados nos anos anteriores. 

O sistema adotado pela DFB para o campeonato era semelhante ao utilizado na Oberliga (masculino, 1945–63): os campeões regionais recebiam o direito de lutar pelo título nacional, formavam-se quatro grupos e, a partir daí, eram definidos os semifinalistas (na Oberliga eram dois grupos para definir quem faria a final) e, posteriormente, os finalistas. Na primeira edição, chegaram às semis, Bonner SC, TuS Wörrstadt, SV Bubach-Calmesweiler e DJK Eintracht Erle - TuS e DJK fizeram a final, enquanto SV Bubach-Calmesweiler e Bonner SC duelaram pelo terceiro lugar. O TuS sagrou-se campeão, batendo o DJK por 4–0, em Mainz, e o Calmesweiler ficou com o bronze, superando o Bonner nas penalidades. O campeonato seguiu neste mesmo formato até 1990, quando foi estabelecida a Frauen-Bundesliga. 

Bonner SC (1x), Bayern (1x), Bergisch Gladbach (9x) SC 07 Bad Neuenahr (1x), KBC Duisburg (1x), FSV Frankfurt (1x) e TSV Siegen (2x) foram os demais campeões do campeonato pré-Frauen-Bundesliga — apenas TSV Siegen (4x) e FSV Frankfurt (2x) conseguiram conquistar mais títulos da divisão de elite, após a mudança de formato.

Bonner SC (1x), Bayern (1x), Bergisch Gladbach (9x) SC 07 Bad Neuenahr (1x), KBC Duisburg (1x), FSV Frankfurt (1x) e TSV Siegen (2x) foram os demais campeões do campeonato pré-Frauen-Bundesliga - apenas TSV Siegen (4x) e FSV Frankfurt (2x) conseguiram conquistar mais titulos da divisão de elite, após a mudança de formato.

A DFB-Pokal Frauen só surgiu em 1980, 10 anos após o fim da proibição, com 16 participantes (os campeões regionais - mudou, apenas, a partir de 1990, quando as divisões nacionais passaram a ser criadas) e jogos eliminatórios em duas mãos a partir de oitavas de final - exceto a final, que era realizada em campo neutro e partida única; a partir da segunda edição, todas as fases passaram a ser realizadas em jogos de mão única. O Bergisch Gladbach foi quem levou o caneco nas duas primeiras edições, batendo TuS Wörrstadt (4 a 0/1981), em Stuttgart, e VfL Wittekind Wildeshausen (3 a 0/1982), em Frankfurt. 

Entre 1985 a 2009, a decisão ocorreu no Estádio Olímpico de Berlim, poucas horas antes das finais masculinas, numa tentativa da DFB em atraír um maior apreço para categoria, mas o "tiro" acabou saindo pela culatra - os torcedores presentes, geralmente, celebravam quando as jogadoras deixavam o campo. Desde 2010  e, pelo menos, até 2023, é realizada no RheinEnergieStadion, em Colônia  e, felizmente, os públicos têm sido bons, sempre acima dos 14 mil espectadores.


A Frauen-Bundesliga e a supremacia alemã na Europa

Quando introduzida, a Frauen-Bundesliga seguiu o modelo de "pista-dupla" (grupos norte e sul) com semifinais, em duas mãos, reunindo os campeões e vices dos grupos - que contavam com 10 clubes cada - para definir os finalistas e, consequentemente, o campeão (em mão única). 

O atual sistema com 12 equipes, em pontos corridos e sem mata-mata, só foi adotado sete anos após a criação da liga. Em 1991, por conta da reunificação, chegaram a formar o campeonato com 22 equipes divididas nos grupos norte e sul, ampliando, também, a quantidade de rebaixados de 4 para 6. 

FFC Frankfurt e Turbine Potsdam foram os clubes que se deram melhor no sistema de pontos corridos, venceram sete e seis vezes, respectivamente. O Wolfsburg, que hoje domina o nível doméstico, é outro que ergueu a Meisterschale em seis oportunidades.

No que diz respeito a público nos estádios, as médias ainda são baixas - a marca recorde de uma temporada da liga é de 1.185 pessoas por partida, alcançada em 2013/14. Desde então o número de espectadores só vem caíndo: em 2018/19, por exemplo, foi de 833 pessoas por jogo, enquanto em 2019/20 era de 650 até a pandemia eclodir e os jogos terem de acontecer com portões fechados.


Frankfurt e Potsdam, por muito tempo, foram as principais potências do país, o que acabou criando uma grande rivalidade entre eles (
clique aqui para saber mais sobre o Klassiker). Em 2006, inclusive, chegaram a se enfrentar na final da Liga dos Campeões Feminina (com formato e nome diferente), onde o FFC levou a melhor, com certa facilidade (agregado: 7 a 2), e conquistou o segundo dos quatro titulos que possui da competição.


Aquele momento, o Turbine era o atual campeão do torneio e tinha em seu elenco peças como a brasileira Cristiane - não era protagonista e, sim, reserva - , uma jovem Anja Mittag dando inicio à carreira (que terminou recentemente) mas já como peça imprescindível no onze titular, Conny Pohlers, campeã do mundo com a seleção alemã e artilheira da UWCL nesta referida edição, e a goleira Nadine Angerer. Era um timaço, tal como o do Frankfurt, que tinha a lenda Birgit Prinz como figura principal.


Ambos chegaram a fazer mais finais e conquistar mais títulos posteriormente: o Frankurt disputou três e venceu duas, sendo a última em 2015, antes que o Lyon iniciasse sua hegemonia, e o Potsdam esteve presente em outras duas, com 50% de aproveitamento. Em meio às constantes aparições dos dois, surgiram FCR Duisburg e VfL Wolfsburg para ajudar a consolidar, ainda mais, o futebol alemão feminino na Europa - o FCR chegou apenas em uma final, e venceu, enquanto o VfL chegou em 4, entre 2012 e 2018, e levou a melhor em duas. 

O título do FCR foi uma grande surpresa. Era, apenas, sua primeira participação - recebeu a vaga por ter terminado em segundo lugar na Bundesliga de 2007/08, temporada onde o FFC Frankfurt venceu a liga e a UWCL. Para chegar à decisão, o FCR teve de deixar pelo caminho o próprio FFC, nas quartas de final. 

Na finalíssima, o Duisburg passeou sobre o Zvezda Perm, da Rússia. O primeiro jogo, na casa das russas, uma goleada por 6 a 0, na volta, no estádio do MSV Duisburg (que comprou a licença do FCR em 2014), guardou apenas um, mais do que suficiente visto a enorme vantagem que possuía. Cerca de 28 mil espectadores compareceram ao MSV-Arena, público que era o recorde da competição até ser ultrapassado, em 2012, pela  final entre Lyon e Turbine Potsdam, onde as francesas levaram a melhor sob olhares de pouco mais de 50 mil pessoas. Curiosamente, a terceira maior marca da competição também envolve uma equipe alemã, no caso, o FFC Frankfurt. Na final de 2008, contra o Ulmea, da Suécia, quase 28 mil estiveram na Commerzbank-Arena para ver a decisão.

Em 14 das 18 edições já concluídas, a Frauen-Bundesliga teve, pelo menos, um representante na decisão e venceu 9 delas - FFC Frankfurt: 4 titulos e 6 finais; Turbine Potsdam: 2 títulos e 4 finais; Wolfsburg: 2 títulos e 4 finais; Duisburg: 1 titulo e 1 final. 

Além do enorme domínio entre os finalistas, a Alemanha ainda aparece com duas jogadoras no top3 das maiores artilheiras: Anja Mittag - que liderava o ranking com 51 gols até ser superada pela norueguesa Ada Hegerberg, atualmente no Lyon e com passagem pelo Turbine - e Conny Pohlers, ambas ex-Potsdam e Wolfsburg.

A partir da temporada 2021/22, o sistema de disputa e o número de vagas da UWCL para as maiores ligas mudarão: a competição comecerá em fase de grupos, com 16 equipes (quatro grupos, os dois melhores avançam) - no atual modelo até tem fase de grupos, mas engloba, apenas, equipes de ligas menores, o próximo reunirá equipes de todos os escalões - e as seis principais ligas (francesa, alemã, inglesa, espanhola, sueca e tcheca) terão três representantes cada. Os campeões das três maiores ligas (francesa, alemã, inglesa) começarão na fase de grupos junto ao vencedor da edição anterior da UWCL, enquanto os vices e terceiros colocados das ligas terão de jogar playoffs.


O atual sistema de divisões

A pirâmide de divisões do futebol feminino engloba oito níveis, de Frauen-Bundesliga a Kreisliga B. Apenas Frauen-Bundesliga e 2. Frauen-Bundesliga são ligas de nível profissional. Antes da introdução da 2. Bundesliga, em 2004, a Regionalliga era o segundo maior nível, atualmente é o terceiro. 

Geralmente, 14 equipes disputam a segundona, no entanto, devido a pandemia, a edição de 2019/20 foi cancelada, sem rebaixamentos e com cinco efetivações, portanto, a temporada 2020/21 será disputada por 19 equipes (clique aqui para saber os participantes da Frauen-Bundesliga e 2. Frauen-Bundesliga em 2020/21) divididos em grupos norte e sul, 10 no norte e 9 no sul — os campeões dos respectivos serão promovidos, enquanto seis clubes serão rebaixados (3 do norte, 2 do sul e mais um via playoff entre os sétimos colocados) ao terceiro escalão.



Embora a terceirona seja dividida em 5 ligas, apenas 3 sobem para segunda. Após o término da competição, é jogado playoffs entre os vencedores e um dos vices, em confrontos de ida e volta, e os vencedores ascendem
 
— o que não ocorrerá em 2020/21, um dos campeões será promovido de forma direta, enquanto os outros quatro jogarão os playoffs.


O surgimento e ascensão da DFB-Frauen-Nationalmannschaft

A Seleção da DFB foi formada em 1982 e, das grandes potências europeias, a Alemanha era a única que ainda não possuía, tanto que, um ano antes, quando recebeu um convite para jogar um Mundialito na China, teve de mandar o elenco do Bergisch Gladbach (que venceu a competição).

Gero Bisanz foi a escolha da Federação para comandar o esquadrão. O alemão não conhecia nada sobre a categoria, mas acabou aceitando, apesar de ter resistido no início. 

Em novembro do mesmo ano, a Frauen-Mannschaft foi a campo pela primeira vez contra a Suíça, em Koblenz, na Renânia-Platinado. A maioria das atletas que integraram o onze inicial no confronto com as suíças pertenciam ao Bergisch. O resultado foi além do esperado: cinco a um para as alemãs-ocidentais, com dois gols de uma jovem Silvia Neid, que saíra do banco para marcar seu nome.
Troca de flâmulas entre as capitãs de Suíça e Alemanha Ocidental (Keystone)
No entanto, durante os três anos e meio que se sucederam, a Seleção de Gero Bisanz esteve fardada ao fracasso: pouco vencia, muito empatava e, às vezes, perdia. Até que conseguisse virar a chavinha no segundo semestre de 1986 e engatar sequências de bons resultados, jogou 21 vezes e só venceu em cinco oportunidades, sendo que apenas uma delas não aconteceu em jogos-teste.
No começo, eu as fazia treinar muito porque havia muitos erros; Bisanz, sobre seu equipe
O esforço foi recompensado nas Eliminatórias para Eurocopa de 1989, que aconteceria na Alemanha. A Frauen-Mannschaft conseguiu a vaga vencendo 4 dos 6 jogos e empatando os demais, na fase de grupos, posteriormente batendo a Tchecoslováquia em uma fase preliminar para competição.

A EURO de 1989 foi um divisor de águas para o futebol feminino alemão - aquele momento, mesmo que liberado, com diversas competições e jogos rolando, não tinha tanta visibilidade, sequer uma  partida ao vivo, seja de clubes ou da própria Mannschaft, havia sido exibida no país. 

A quantidade de participantes seguiu sendo a mesma das duas primeiras edições - as quais a DFB-Frauen não participou- quatro, neste caso, Alemanha Ocidental, Itália, Suécia e a favorita Noruega, que era, também, a atual campeã.

Alemanha e Itália tiveram seus caminhos cruzados novamente -  já haviam se enfrentado duas vezes nas Eliminatórias. Do outro lado da chave, Noruega e Suécia duelaram e, como esperado, as norueguesas venceram.

8 mil pessoas acompanharam a vitória alemã contra as italianas, nas penalidades, in loco. A goleira Marion Isbert foi a heroína do dia: defendeu três cobranças e assinalou a última -  4 a 3p; 1 a 1 no tempo regulamentar, Silvia Neid foi quem marcou para as alemãs-ocidentais. E, pela primeira vez, houve transmissão de um jogo feminino: mais de um milhão de pessoas assistiram pelo Das Erste (ARD), principal canal aberto do país. O que não se repetiu na finalíssima, embora fosse o esperado - o canal exibiu apenas um resumo da decisão.

A final, em Osnabrück, deu ao conto de fadas alemão um final feliz. Surpreendentemente, as alemãs-ocidentais passearam sobre as nórdicas: quatro a um; três a zero só no primeiro tempo. Ursula Lohn, aos 22 e 36; Heidi Mohr, aos 45; e Angelika Fehrmann, fechando a conta aos 73. 
Ninguém esperava que fôssemos vencer. Então decidimos dar tudo na final e, apenas, aproveitar o jogo. […] Além disso, o grande apoio dos torcedores no estádio também nos ajudou muito; Silvia Neid, sobre o título
Lembro-me que ficamos alojadas em Kaiserau e, no dia da final, fomos para Osnabrück de ônibus e, quando chegamos lá, nos deparamos com 3 mil pessoas do lado de fora do estádio sem poder entrar, porque estavam esgotados os ingressos (23 mil foram colocados à venda); Martina Voss-Tecklenburg, sobre o apoio da torcida
Jutta Nardenbach, esquerda, Petra Damm, meio, e a capitã Doris Fischen, direita, celebrando a conquista (dpa)
Ainda sob o comando de Bisanz, foram mais dois títulos europeus, em 91 e 95, e um vice-campeonato mundial para Noruega, também em 95. O comandante deixou o cargo em agosto de 1996 para dar lugar a Tina Theune, que foi sua assistente durante 10 anos. 

Além de repetir o feito do antecessor sagrando-se três vezes campeã continental, Tina foi além. Levou Adler ao primeiro titulo de Copa do Mundo em 2003, nos Estados Unidos - inicialmente, o mundial seria realizado na China, no entanto, em decorrência da epidemia do vírus Sars-CoV, teve de ser realocada para os EUA, que havia sediado o torneio quatro anos antes.

A campanha da Mannschaft foi perfeita, desde a fase de grupos até a finalíssima. Contra Canadá, Argentina e Japão, nos grupos, Rússia, nas quartas de final, e os EUA, nas semis, passeou: 23 gols marcados nos cinco jogos e só 3 sofridos. Na final, contra a Suécia, um épico. A vitória alemã só aconteceu na prorrogação e com o extinto gol de ouro! 


A Seleção Sueca saiu na frente, ainda no primeiro tempo, com Hanna Ljungberg, mas acabou permitindo que as alemãs igualassem o marcador já no início do segundo com um toque de genialidade da craque Birgit Prinz, para colocar Maren Meinert em condições de marcar. Com o placar igual, o jogo seguiu para o tempo extra e lá, Renate Lingor achou Nia Künzer - que havia entrado em campo aos 88 minutos - em cobrança de falta, para carimbar, com um sútil toque de cabeça, o titulo mundial.


Mayer-Vorfelder, presidente da Federação à época, deu a cada jogadora um bônus de 15 mil euros pelo título e atendeu ao pedido de retirar as três estrelas da camisa que remetiam aos titulos conquistados pelos homens.

Silke Rottenberg (goleira), Sandra Minnert (defensora), Bettina Wiegmann (meia), Maren Meinert (meia) e Birgit Prinz (atacante), que ainda foi artilheira e melhor jogadora, foram selecionadas para o time ideal do torneio.
Foi um momento indescritível. É incrível que eu tenha marcado o gol do título; Nia Künzer, sobre seu gol
Nia sofreu muito ao longo da carreira, antes mesmo de chegar ao Mundial, aos 23 anos, já havia passado por três cirurgias em seus joelhos devido a lesões nos ligamentos cruzados (duas no esquerdo e uma no direito) - e, ainda, viria a passar por uma quarta pós-Copa, o que a tirou dos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004. O seu gol de ouro lhe eternizou. Além de dar a glória ao país, ainda foi o primeiro a ser eleito "Tor des Jahres" entre mulheres no futebol alemão. Aos 28 anos, em 2008, anunciou sua aposentadoria - dois anos antes, já havia renunciado a seleção por conta das lesões. 

Sob o comando de Silvia Neid, que deixara de ser assistente-técnica de Tina para assumir o posto em 2005, a Mannschaft alcançou o bicampeonato em 2007, na China, batendo o Brasil de Marta & cia, na final, com gols de Prinz e Laudehr. A comandante, ainda, levou a equipe a mais dois títulos da Eurocopa, em 2009 e 2013, além do inédito Ouro Olímpico em 2016. Nenhuma outra seleção europeia venceu tanto quanto a alemã. 

Desde que Neid saiu, três treinadores estiveram à frente da Adler: Steffi Jones, Horst Hrubesch (interino) e Martina Voss-Tecklenburg. Apesar de não ter conseguido garantir a vaga para os Jogos Olímpicos de Tóquio, Tecklenburg devolveu a estabilidade de outrora: disputou 16 jogos, venceu 14 e perdeu apenas um, que infelizmente resultou em eliminação na Copa do Mundo de 2019, nas quartas de final, e na não-classificação para as Olímpiadas.


A grande responsável pelo que hoje é o futebol feminino alemão atende pelo nome de Hannelore Ratzeburg, que trabalha, exclusivamente, com a categoria desde 1974, quando foi contratada pela DFB para ser consultora. Ratzeburg foi quem incentivou as introduções de DFB-Pokal e Frauen-Bundesliga, além da Frauen-Mannschaft. Quando a DFB decidiu que era a hora de ampliar seus investimentos, em 1990, deu a ela um comitê para presidir e seis anos mais tarde, a homenageou com a entrega de um distintivo de ouro por seus serviços prestados ao futebol feminino. 

Em 2007, Ratzeburg tornou-se a primeira mulher a ser promovida ao Presidium da Federação. Desde então ocupa um dos cargos de vice-presidente e coordena toda a estrutura do futebol feminino, desde as divisões de base (U-15 a U-23) até o profissional.


Recordistas pela Seleção 
- Birgit Prinz, atacante, 214 jogos e 128 gols (primeira em aparições e maior artilheira)
- Heidi Mohr, atacante, 83 gols (segunda maior artilheira)
- Kerstin Stegemann, defensora, 191 jogos (segunda em aparições)
- Inka Grings, atacante, 64 gols (terceira maior artilheira)
- Ariane Hingst, defensora, 174 jogos (terceira em aparições)


Hall da Fama
- Birgit Prinz 
- Heidi Mohr
- Tina Theune
- Silke Rottenberg
- Doris Fitschen
- Nia Künzer
- Steffi Jones
- Bettina Wiegmann
- Renate Lingor
- Silvia Neid
- Martina Voss-Tecklenburg 
- Inka Grings

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